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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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22/05/2006

Para onde olhar em “Meninas” de Sandra Werneck

Após dirigir Cazuza, uma cinebiografia moldada para mães de família, Sandra Werneck apostou no projeto Meninas e deu uma pausa na ficção. Durante um ano, a produção acompanhou a vida de quatro meninas da favela, desde os primeiros meses de gravidez até o momento do parto, visitando-as em casa, acompanhando-as em bailes funk e hospitais. Apesar do foco inicial ser a pouca idade das protagonistas – a mais nova tem treze anos e a mais velha quinze – aos poucos, o documentário revela que a idade é apenas um detalhe na vida dessas jovens de comunidades.

O primeiro conceito a cair é o da falta de informação. Todas elas sabem exatamente como engravidar, como evitar a gravidez, o que é camisinha e o que é pílula, e sabem mais ainda o que é sexo. A sociedade da informação não encontra no Brasil um bom representante, mas seja pelas campanhas do Ministério da Saúde, seja pela realidade nua e crua de vizinhos e familiares, engravidar não é mais um mistério. O sexo como tabu só existe nas mentes retrógradas. O mistério a ser desvendado está agora nas responsabilidades da maternidade e de se constituir uma família.

Evelin, a mais nova, diz que começou sua vida sexual aos 11 anos de idade. Tinha curiosidade, quis saber e fez. Aos 13 está grávida de um ex-traficante. Quando soube que ia ser pai, o jovem foi até o chefe do morro, pediu para sair. A única saída é a morte. Evelin então o acompanhou e convenceu o chefe a deixá-lo viver. Não é preciso muito para se imaginar o final deste rapaz. O que surpreende mesmo é a passividade da mãe de Evelin diante da vida da filha, alguém que vive no mundo imaginário das novelas. Evelin conta suas brigas com o pai da criança, que dá rasteiras e socos na boca porque não quer a mulher grávida nos bailes. Evelin aparece dançando ao lado de outras meninas grávidas, maquiada e produzida. A inocência de criança adquiri uma faceta distorcida que tem sua melhor representação no relato da menina sobre a favela. Evelin diz que adora morar na favela, que nos momentos de tiroteio, quando todos se escondem, ela vai para a sala dançar, porque gosta do barulho. Não há nada errado em gostar da favela, mas o motivo da menina merece atenção.

Edilene e Joice formam uma dupla curiosa. As duas engravidaram de Alex em datas muito próximas. Alex ganha 150 reais, dá 75 para cada uma para ajudar na criação dos filhos. Mais interessante do que o comportamento das meninas é o do rapaz. Ele tem um imenso orgulho da paternidade e diz que não vai fugir da responsabilidade. Novamente, constituir família parece um sonho para todos eles. Mais do que um rito de passagem para o mundo adulto, é um símbolo de recomeço, um sinal de que a vida está caminhando para frente, que há esperanças de não permanecerem no ponto em que estão, seja realidade ou ilusão. Conseqüência é uma palavra de significado desconhecido em um universo sem “conseqüências”.

Por fim, Luana, quinze anos, planeja a gravidez porque gostou de cuidar da irmã mais nova. Todas as irmãs parecem adorar a gravidez de Luana, simulando os problemas com suas bonecas e mamadeiras fictícias, transformando o chá-de-bebê em um aniversário de quinze anos. A mãe, faxineira que sempre quis ter um menino, cuida de suas cinco filhas e nem acredita quando Luana descobre o sexo do bebê, uma menina.

Se o problema, porém, não está na falta de informação, para onde devemos olhar? Ao limitar sua visão, não olhar o que se passa ao redor dessas meninas, isolamos uma situação que não pode ser analisada sem as conexões com a sociedade. A gravidez na adolescência não é um fenômeno das classes baixas, ela não nem é uma interrupção da própria vida. Meninas de outras classes sociais teriam filhos? Suas famílias dariam o mesmo apoio incondicional? Fica claro, que essas meninas e rapazes (e suas famílias no pouco que aparecem) só querem sonhar, como nós. Para isso, feliz e infelizmente, usam os tijolos disponíveis sem entender a dimensão da construção.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

Para onde olhar em “Meninas” de Sandra Werneck



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