Missão ImpossÃvel III – Dividindo a responsabilidade
Primeiro um dado numérico: MI3 arrecadou U$51 milhões nos EUA em um fim de semana e no resto do globo U$70 milhões. Apesar da cifra alta, o filme não teve o desempenho esperado. A vida pessoal de Tom Cruise foi considerada a responsável pelo resultado ruim, mas podemos analisar um pouco mais detalhadamente a situação.
Quando MI3 foi lançado estipulou-se uma escala de bilheterias usando como referência os filmes anteriores, inevitável. Foi dito que MI-1 fez $100 milhões, o segundo $200 milhões e que o terceiro devia repetir o sucesso. A “missão impossÃvel” seria fazer um roteiro que todo mundo entendesse. Mas as cifras não são tão redondas. Por enquanto, esqueça o mercado de DVDs, esqueça a pirataria.
Missão impossÃvel 1, lançado em 1996, arrecadou $180 milhões (falando sempre em dólares) nos EUA, com receita total mundial de $456 milhões, um sucesso para um filme que custou $80 milhões! O segundo filme, lançado em 2000, arrecadou nos EUA 215 milhões, com receita total mundial de $545 milhões. Lembrando que ele custou um pouco mais, $125. Dado estratégico: ambos recuperaram o orçamento já no mercado interno.
Agora, a escala 100×200 não parece tão real. Passemos para a fórmula Missão ImpossÃvel: um elemento cult da ação e um elemento pop.
Recapitulando, o primeiro filme foi dirigido por Brian de Palma. Na época, o diretor vinha de 2 filmes fracos e ainda tentava se recuperar do resultado de Fogueira das vaidades. Tom Cruise, porém, vinha de A firma e Entrevista com vampiro, que ganharam a atenção da mÃdia e dos fãs de seus respectivos autores (ambos adaptações de livros). Se entrevista com vampiro rendeu a Cruise o troféu framboesa do ano, também rendeu aos cofres da Warner $223 milhões (custou 60), enquanto A firma rendeu $270 milhões para a Paramount.
Mesmo com uma história “complicada” para o público, Missão impossÃvel 1 foi um sucesso movido pelo nome do diretor e pelo nome/histórico do ator.
Como em time que está ganhando não se mexe, usaram uma fórmula parecida no segundo filme. Nessa época, Tom Cruise havia rumado para os “cults”, filmado De olhos bem fechados de Kubrick e Magnólia, pelo qual recebeu uma indicação ao Oscar. A parte “pop” precisava vir do diretor e escolheram John Woo. Seus dois trabalhos marcantes anteriores contavam com John Travolta. Um deles, Broken arrow em 1996, mostrava Travolta e Christian Slater no papel de ex-amigos competindo por uma poderosa arma militar roubada. No ano seguinte, Face/Off, colocou John Travolta e Nicholas Cage trocando de rosto, atirando sem parar, defendendo famÃlia e outras lengas. Broken Arrow arrecadou $150 milhões e a Face/off a bagatela de $245 milhões (custou 80) de receita mundial. Somando isso à boa impressão deixada pelo primeiro filme no público, temos um resultado novamente positivo.
Infelizmente Missão ImpossÃvel 2 deixou algumas feridas abertas. Havia uma grande expectativa e a crÃtica não perdoou. O elemento principal da trama foi um repeteco da troca de rosto de Face/off. A direção deixou a desejar, com momentos entediantes que aqui chamamos de barrigas. E por fim, ninguém entendeu a trama.
Chegamos, enfim, ao terceiro filme. Cruise está em baixa por causa de Katie Holmes, cientologia e esquisitices genéricas. Repete-se então a dobradinha nome do diretor/ator, colocando o badalado JJ Abrams no projeto. Para quem não associou o nome ele é o criador de Lost e Alias. Abrams levou na bagagem o roteirista Alex Kurtzman, de Alias e filmes como A lenda de Zorro e A Ilha (vindo por aà Star Trek XI e Transformers). Para efeito de análise, cada um rendeu $141 milhões (nos EUA só 45, com custo de 75) e $160 milhões (nos EUA só 35, com custo de 126). Ou seja, um roteirista que não agradou o público americano e só tapeou o internacional (que o deus do cinema salve os transformers). JJ Abrams não tem nenhum grande trabalho no cinema, a não ser que você considere o roteiro de Armagedom um grande trabalho. Fica claro então o peso do nome de JJ Abrams, mais do que do seu currÃculo. Infelizmente para MI3, televisão e cinema são mÃdias diferentes. Saem milhões de elogios à eficiência de Abrams como diretor e roteirista. Os méritos da bilheteria ficam para JJ Abrams. O desempenho abaixo do esperado cabe a Tom Cruise e sua atuação limitada.
Voltando aos currÃculos, entre um filme e outro, Tom Cruise fez Vanilla Sky, Minority Report, o Último Samurai, Colateral e Guerra dos Mundos. Alguns alcançaram excelentes bilheterias, outros um status cult (exemplo do chato samurai). É fácil atribuir o desempenho aquém do esperado à exposição de Cruise na mÃdia. DifÃcil é analisar MI3 como ele é. Lembre-se então que:
- Quem viu o segundo filme por causa da boa impressão do primeiro, pode não ter visto o terceiro por causa da péssima impressão do segundo. Naquela temporada, para piorar, Travolta lançou um filme alien patético chamado A reconquista, uma bomba, e Missão impossÃvel passou a ser citado junto com ele como decepção da temporada, apesar da boa bilheteria (compare os $245 milhões de MI2 com os $29 milhões arrecadados pelo filme do Travolta e tire suas conclusões - para ajudar, 29 milhões não cobre o custo de marketing do filme de Travolta).
- Abrams caprichou na manipulação do clima de suspense, mas ele e seus pupilos esqueceram de montar a história. É um filme que absolutamente NADA acontece. Os personagens não se transformam, o filme termina exatamente onde começou, há uma forçada para Ethan entrar no jogo. Os clichês se amontoam sem um pingo de ousadia, não há nenhuma inovação, apenas Cruise descendo pendurado em gancho (usado no primeiro) e Cruise trocando de rosto (segundo). Se uma equipe presente resgata a tradição do seriado, faltou aos roteiristas e ao diretor de seriados lembrar que isso é cinema e não TV. Sair do cinema falando “igual aos anteriores”, não ajuda muito. A sensação de vazio é muito grande.
- No final do filme, que devia ser o clÃmax, o roteiro usa o mesmo elemento de suspense 2 vezes seguidas. Ethan sendo torturado sem o menor motivo (depois vem uma explicação fajuta) e depois de uma correria pela China, Ethan na mesma situação enfrentando o vilão. Se alguém piscar enquanto Cruise corre desesperado não sentirá falta, pois nada disso tem função. A parte da tortura e da corrida em busca da mulher não existem como roteiro.
O quanto o filme vai arrecadar, só em agosto para se ter uma idéia. A idéia de usar a China como cenário para somar um público potencial ao tradicional pode dar resultados - ou não. Podemos usar a pirataria, o mercado de DVDs, a queda de público nas salas de cinema, para fazer previsões mais realistas. Mas se esquecermos de tudo, se equipararmos 1996, 2000 e 2006 em todos os parâmetros e deixarmos apenas o ator e o diretor na corda bamba, sejamos justos. Responsabilidades divididas. 50% para a falta de manha de Abrams, 50% para os exageros de Cruise fora da tela.
Fontes: para números - box office mojo, para dados técnicos – imdb.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.



















