X-men III sobrevive do imaginário coletivo
A sÃndrome das trilogias fez sua vÃtima no universo dos hqs. A terceira adaptação de X-men para o cinema caiu na tentação dos efeitos especiais e deixou elementos fundamentais da história de lado, com um resultado bem abaixo dos filmes anteriores. Uma franquia que prometia muitos filmes de sucesso foi transformada em um confronto final com os espectadores, mostrando um amontoado de acontecimentos sem sentido que empurra anos de história para um rompimento desnecessário. Ao explorar a saga de Fênix e da cura mutante em um único filme, o roteiro transformou personagens importantes em participações especiais e nomes soltos na tela. Alguns deles só sabemos quem são porque há cenas especialmente feitas para que alguém diga seus nomes e nada mais. Chega a dar pena ver atores como Ian McKellen e Patrick Stewart vitimados por diálogos fracos e cenas sem nexo. Magneto, personagem de McKellen, aparece diversas vezes convocando mutantes para a guerra e termina com o fatÃdico clichê “what have I done?”. São raros os momentos em que ator e personagem podem mostrar sua força.
Se Magneto tem um brilho próprio, a coisa não está nada boa para os outros personagens. Professor Xavier não escapa dos cortes. Parece saber desde o começo que vai perder a função, juntamente com Ciclope e Vampira. Noturno, chamariz do filme anterior, nem chega a aparecer, e MÃstica, que nos hqs ganha importância com a formação da Irmandade, é usada como elemento de humor e descartada assim que possÃvel. Quem prometia ser a grande novidade, o Anjo, não possui função nenhuma e fica voando de um lado para outro, aparecendo nas beiradas da cena, assim como Colossus que não abre a boca. Todos parecem sofrer da sÃndrome das cinco falas.
Para ocupar a função de Jean Grey nos filmes anteriores, o X-men 3 nos apresenta o Fera, um cientista, polÃtico e mutante que ocupa um importante cargo no senado.
Supostamente, ele enfrenta um dilema quando descobre que a cura mutante é possÃvel, vislumbrando por um instante sua mão sem pelos e sem pele azul.
Apesar das cenas sem sentido e uso exagerado de nomes dos gibis (se você é fã dos Morlocks, esqueça, Callisto é a única que fala um pouco mais), há motivos para ver a terceira parte. Além do bom desempenho de McKellen, Hugh Jackman continua divertido como Wolverine, e Kelsey Grammer (do seriado Fraiser) achou o ponto certo entre humor e drama para viver o seu Fera. O destaque fica por conta da atuação de Famke Janssen, conseguindo alterar apenas com o olhar o seu papel de Jean Grey e Fênix. Sem contar o “papel de parede” que ela faz na maior parte do filme, muda, atrás de Magneto. Halle Berry faz a sua atuação default, o que já é lucro, conseguindo dar dignidade a uma Tempestade que só apanha. Ellen Page também se sai bem como uma Kitty adolescente. Apesar de parecer apenas o pivô da briga entre Bobby (Homem-gelo) e Vampira, a personagem ganha participação fundamental no final.
Parte do resultado decepcionante para fãs dos hqs e dos filmes anteriores está sendo atribuÃda a saÃda de Bryan Singer do projeto. Além de dirigir X-men e X2, ele participou do roteiro do primeiro filme e ajudou a moldar o perfil cinematográfico dos personagens, tornando-os realmente humanos.
Se você quiser entender um pouco mais sobre a qualidade de X-men 3, pode verificar o nome dos roteiristas nas letras miúdas do cartaz. Zack Penn foi o roteirista de Elektra e Quarteto Fantástico, filmes de heróis que pecam pelos mesmos defeitos de X-Men 3. Ele também assina Por Trás das Linhas Inimigas, Inspector Gadget e Last Action Hero (com Schwarzenegger). Simon Kingerb, seu parceiro, escreveu Sr. e Sra. Smith, repleto de lapsos e falhas de continuidade, curiosamente um filme que contou com o charme dos atores para fazer sucesso.
Aparentemente, a franquia X-men foi enterrada aqui. Resta aguardar os projetos solo de Wolverine e Magneto, e o que mais puder nascer do universo mutante.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.



















