Nam June Paik

Nam June Paik teve em maio, no Centro Cultural Telemar (RJ), o que foi a mais completa retrospectiva desde sua morte, em 29 de janeiro de 2006.
De todas as obras, cobrindo 40 anos de convÃvio com a arte contemporânea e de debate com as questões da linguagem audiovisual, escolhi a meia hora que ele dedica a Charlotte Moorman, a ‘topless cellist’, sua amiga e colaboradora. Neste vÃdeo, há pedaços de um outro, anterior, o Tribute to John Cage. E, nele também, a passagem entre documentar uma arte de colagem, de acúmulo, e vir a fazê-la ele mesmo, como no Analogue Assemblage, de 2000, o mais recente.
O que esse vÃdeo, ainda de 1995, pergunta é até que ponto o documento de uma performance pode ser, ele próprio, uma performance. Em Topless cellist, Nam mantém uma bem comportada cadência de entrevistas com professores, colegas e companheiros de Charlotte, alternando com registros de suas performances. Ela tocava nua, com dois pequenos televisores no lugar dos seios; tocava coberta de chocolate (Chocolate Cello, direção de Jim McWilliams); tocava pendurada vários metros acima do palco (Sky Kiss, de Otto Piene); tocava com um homem no lugar do violoncelo. Sobrepunha efeitos de espetáculo, acumulava incitações sensoriais.
Parte destas idéias era comum a Nam, como o uso concomitante de vários televisores - presente em diversas de suas obras. Nesse vÃdeo mesmo, ora Charlotte tem televisores à guisa de sutiã, ora é Nam que, na edição do vÃdeo, ‘recorta’ dois cÃrculos no lugar dos seios, onde mixa outras imagens filmadas da mesma performance, telas auxiliares.
Em quase todo o vÃdeo, contudo, seu enquadramento e montagem são os da neutralidade - em um papel de testemunha e não de colaborador. Mas, em dado momento, Charlotte, em um palco, antes de começar sua performance, pede ao maestro já posicionado que chame Nam. Pede insistentemente e completa;
“Não me mexo enquanto Nam não vier.”
Dono da interpretação, da imagem da performance que iria acontecer - muito mais do que agente de sua reprodução mediatizada - Nam neste momento se mostra como integrante do fazer artÃstico. Charlotte precisava dele, de seus olhos, para poder se ver do outro lado do palco, que é o lado que conta, o do fruidor/participante.

Além disso, o vÃdeo aborda a questão de algo que, sendo uma reprodução, mostra uma irreprodutibilidade. Não é possÃvel, ao ver o vÃdeo, viver o que foi vivido naquela época e naqueles palcos, as mulheres com jóias e penteados cuidados, na platéia chique de uma Nova York que usava a vanguarda como diversão de salão.
Mas já quase no final do vÃdeo, depois de mostrar a artista doente de câncer, Nam adota uma série de imagens muito rápidas. Nesta hora, ele usa, na linguagem audiovisual, o correspondente do que Cage usava em seus sons acumulados e do que Charlotte usava, em sua proliferação de estÃmulos sensoriais. Tanto quanto eles, Nam desestabiliza os indÃcios do real e suas convenções de percepção.
Cage, amigo pessoal de Nam, fez com sua música a trilha sonora de um capitalismo estridente e otimista. Seu Concerto para 12 Rádios é o melhor retrato crÃtico de uma sociedade que queria tudo.
Na apropriação concomitante de registros que estes artistas fizeram, cada um com seu instrumento, o resultado é um só: a imagem informe de uma arte que escolhe combater do lado de dentro as suas condições de reificação.
Links externos
- Nam June Paik Studios
- The Worlds of Nam June Paik
- Charlotte Moorman @ Wikipedia
- John Cage @ Wikipedia
Elvira Vigna é escritora e crÃtica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.



















