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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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18/06/2006

Falando de Arte

Falar de arte sem contextualizar é complicado, mas começar obrigatoriamente no convencional é o meio mais rápido para tornar uma obrigação chata algo que deveria ser gostoso. É assim que vejo arte: algo extremamente prazeroso.

Não, não enlouqueci. E não falo de sacanagem alguma, nem de sexo. Falo do prazer em sentido amplo, de viver e curtir a arte. “Sacar” o que está rolando na produção artística contemporânea, desvendar idéias, artistas, pessoas, isso sim fascina em arte. A história vem em conseqüência, e depois naturalmente vem a curiosidade de saber o “who-is-who”.

A sociedade e cultura ocidentais, mais a “moral cristã”, que valorizam o sofrimento como virtude, são responsáveis por um estado de coisas que às vezes me deixa a fim de dizer “pára mundo que eu quero descer!” Para falar ‘tecnicamente’ sobre arte vocês podem achar que há gente muito mais capacitada que euzinha (Até porque a minha esclerose-galopante me deixa completamente abobalhada com relação a nomes e datas, muitas vezes.), mas justamente é isso que resulta num “endeusamento abobalhante” da arte que é contrário ao prazer!Em alguns casos, essa “santificação” acontece inconscientemente. Como pessoas que, para valorizar um assunto, recorrem logo ao batido “estado da arte’ da coisa. Noutros, uma simples fala denota uma falta de respeito e preconceito absurdos, como expressões do tipo “fulano está fazendo arte”, quando a criatura está fazendo algo fora do que é considerado ‘certo’…

Há algumas tentativas de valorização que acabam como “tiros pela culatra”… Fazendo analogias tão pateticamente vazias que repetem padrões exaustivos sem realmente sequer saber do que está falando. Desde cedo se incute nas crianças a idéia de arte como algo “errado”… Mas que coisa difícil…
A fábula de La Fontaine, da Cigarra e da Formiga é o apogeu da bobagem! Enquanto a formiguinha, “tadinha” (olha o sofrimento aí…), trabalha feito uma condenada para ter seu sustento, a cigarra, aquela “desocupada”, “luxuriante”, “vazia” e “fútil criatura”, só canta… É artista, a descarada!

Essa fábula, preconceituosa, coloca o artista, como um vagabundo, que não trabalha, não produz e, portanto, não tem futuro! E a trabalhadora formiguinha, além de trabalhar, ainda acolhe a desocupada. Boazinha ela, nossa, não é?

Pois é… A moral da história: Artista é vagabundo e arte não é trabalho. Gostaria de encontrar, um dia, o Sr. La Fontaine cara-a-cara para saber de onde tirou essa idéia estapafúrdia!

Uma historinha que circula aí pela Internet, que recebi (sem citação), vem a calhar. É a “forra” dos artistas para este preconceitozinho medíocre, de arte como sinônimo de desocupação. Aliás, é o “abre alas” da minha cruzada-pessoal-de-conscientização-cultural-artístico-educacional, e diz mais ou menos assim:

Cigarra e a Formiga se cruzam num “chopicentis” da vida. Formiga desculpa-se, se livra dos seguranças e de toda gente em volta, virando-se para seguir seu caminho, quando escuta: – Formiga! Não creio! É você, menina?

A Formiga não faz idéia de quem seja.

A outra continua: – Querida, você não está me reconhecendo? Não acredito que não se lembre de mim, Cigarra, que você ajudou naquele inverno, lembra?

A formiga, então, sorri e diz: – Mas Amiga Cigarra, você está tão diferente… Como está?
Cigarra, abraçando a formiga, diz: – Pois não é, amiga? Você está igualzinha! Como tá a vida?

Formiga responde: – A vida? Na mesma, trabalho e mais trabalho, nada de novo, e você?
Cigarra: – Ah, minha amiga, nem te conto! Depois daquele inverno em que me socorreu, veio a primavera e o verão. Como sempre, cantava num bar… Um produtor internacional me viu e adorou minha voz! Me levou para fora, me produziu e me lançou no mercado internacional. Enfim, estourei e fiquei rica. Tô aqui hoje para lançar o meu novo álbum. Como não paro em canto algum, tenho apartamento em NYC, Londres e aqui, e estou indo para Paris prá uma turnê pela Europa, aliás, quer alguma coisa da França, querida?
A Formiga, que ouvia a tudo pensativa, cabisbaixa, encara a Cigarra e diz, categórica: – Quero… Quero sim, amiga. Se por acaso você encontrar um tal La Fontaine, faz um favor para mim? Manda ele pra puta que pariu?!

 


Jurema Sampaio é Mestre em Artes Visuais, especialista em Ensino e Produção de Arte, licenciada em Arte-Educação, Desenho e Artes Plásticas (PUC-Campinas). Atualmente cursa Doutorado. Professora Universitária.

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