Código Desconhecido
Existe um código entre esses seres que ocupam uma terra denominada Brasil, que permite a completa alienação, desloca todas as energias e remete a apenas um espetáculo, circense talvez. Nele tudo é possível, erradica-se a realidade, submete-se à utopia comunitária, que tédio colorido, quimera laboriosa que precede qualquer idéia.
Não se pode ler um jornal, nem mesmo as charges do Angeli se salvam desse colorido infernal, para que lado devo voltar minha atenção? Bem, não nego que também estou vivendo esse momento único do nosso grande sonho, presumo que o maior erro do viciado é justamente esse, ter a certeza do sucesso.
Não existe nada que mude isso, brasileiro é assim, se torna um quando o assunto é um objeto esférico, apresenta-se como ser primeiro de sua vida. Estranho perceber isso. Que dor é ver isso. Confesso que nessas épocas, sinto o gosto amargo de não cair completamente nessa ressaca. Pior que a ressaca é o gosto amargo dos momentos de lazer… salvam-se os livros, alguns poucos desbravadores na internet, nem os amigos se salvam.
Mas eis que em um momento, em que eu apenas vejo reprises insossas, programas que de tão fracos me lembram daquela sensação que era levar um gesso na perna, me deparo, num sábado à noite, já com os olhos cansados de tanto ler, com um programa nada original. Uma sessão de filmes. Em canal aberto, não sou de fazer propaganda, mas o programa “Mostra Internacional de Cinema” merece uma lembrança. Que lembrança! O filme ainda perdura em minha cabeça, quase que completamente tomada pela alegria imposta, é quase surpreendente perceber a capacidade estética desse filme, do cineasta Michael Haneke, nada de extraordinário, simples, sutil, exagerado, mas que tem em sua composição uma forma de transmitir as histórias que instiga de forma surpreendente.
A introdução transmite de forma complexa todo o conteúdo, e não estou falando das andanças de Juliette Binoche, mas da menina, com cara de assustada, que numa brincadeira, não lembro o nome agora, é aquela que você imita determinada situação e o resto do pessoal tem que decifrar o que você estava imitando. Ali com seu olhar de desespero, suas mãos tocando-se, passos retrocedendo gradualmente, fugindo incompreensivelmente de algo que não existe, ou não deveria, apóia-se na parede, esconde suas pernas com a saia, reclusa e indefesa, pode ser apenas medo, talvez insegurança, nos dias de hoje talvez tenha perdido o celular, ou esqueceu a droga da senha do caixa eletrônico, que auto bloqueou-se depois das três tentativas infrutíferas.
A menina não pode transmitir todo o desconforto, mas transmite, não pode ser tão indefesa, mas parece, não pode haver situação mais constrangedora, mais repulsiva, que situação é essa? Como pode transmitir assim em gestos algo tão complexo, retirado e posto de lado? Ela continua se encolhendo e sua expressão não muda, espere! Muda sim, ali naquele contraste mínimo, que de tão pequeno instiga mais ainda. A parede na qual se apóia é tão limpa que parece branca, aconchegante, difusa, um esconderijo aberto a interpretações.
Quanta dicotomia, falar do restante do filme seria não apenas infrutífero de minha parca verve, como seria desnecessário, a experiência engendrada pelo Sr. Haneke é tão complexa quanto intimista, depende da mais pura interpretação, não espere nada fechado, nada complexamente produzido, pensando e maquinado, o filme é como a vida, não termina, continua abruptamente, querendo seu usuário ou não, possui ramificações positivas, outras negativas, mostra a realidade, não é um filme para qualquer pessoa – que expressão tosca – mas deveria, já que seus acontecimentos nem parecem ser lá fora, mas aqui, ali na esquina, ali na rua, ali logo depois da parede que separa minha sala da mulher que senta-se freqüentemente no chão.
Esse código que subverte e permeia, realidade compulsivamente ordinária, banalizada pela instituição, mantida pelo meu imposto que também é o seu, enganada e orquestrada. Esqueça um pouco a felicidade de alguns dias, que corre pela tela do seu televisor, não precisa mudar nada, apenas observe, que o filme, tão complicado, tão parado, tão estranho, esquisito, sei lá mais o quê, é como a tua vida, muda, como a menina, uma imitação de um código desconhecido.
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Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















