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Malu Fatorelli

Lá pelas tantas, quando fronteiras de um modo geral – de gêneros, países ou cânones – se tornaram tênues, a arte, questionada pela sua similaridade com a não-arte, passou a pensar a respeito de seus próprios processos e conceitos.

Mas é claro que, aqui também, na história da arte, não há fronteiras fixas e a preocupação com o fazer e com o material já vinha desde sempre, bastando, para ver isso, puxar esta diacronia.

Malu Fatorelli puxa.

Malu Fatorelli

Ela ocupou uma das salas do Parque Lage, em julho, com o que poderia ser a continuação de um libelo, fôssemos nós franceses e os hábitos os do século XVII ou quiçá do XVIII.

Pois o Parque Lage, escola carioca que é o berço de tantos artistas contemporâneos, se tornou conhecida pelo movimento chamado Geração 80, de pintores que tinham na cor e no volume os instrumentos maiores de sua expressão. E Malu traz para este núcleo de coloristas a sua arte de arquiteta e desenhista. Tipo Nicolas Poussin versus Rubens ou, cem anos depois, Ingres e Delacroix.

Ela é Poussin e Ingres. Fosse Rubens ou Delacroix e em vez de lápis estaríamos vendo bolotas de tinta, talvez o próprio tubo incluído na formação concreta, material, da obra.

Fosse Rubens ou Delacroix e sua arte não causaria maior choque, já que a exposição do material, do concreto, quando se trata de tinta, cor e volume, já é coisa antiga, velha mesmo. Mas lápis?

O resultado é um desenho de traços (as sombras dos lápis no gesso onde eles se enfiam) que muda ao mudar a luz e a posição do espectador, ao mesmo tempo em que leva a não-ficcionalidade, a imposição ética de mostrar a fatura, até as últimas conseqüências: é assim que é feito, e é este o instrumento que tradicionalmente seria usado para fazê-lo e que ainda o é, mas de outro modo, com ele presente e não mais sombra de um gesto que se pretende genial e inalcançável.

Esta presença física dos lápis requer mais um comentário, que nos remeterá a uma das quebras de fronteiras de que falávamos, a dos gêneros. Pois os lápis são fálicos, agressivos, voltados com suas pontas para o espectador, são muitos, a atirar tiros de grafite. E no entanto, o desenho, a frágil trama dos traços, criada pelo luz e pelo movimento, recupera um fazer abrangente, includente (o desenho se espicha, busca mais espaço do que de fato ocupa) não mais lógico mas analógico, nem um pouco certeiro ou autoritário.