Nem tão moderno, nem tão brasileiro

A primeira caracterÃstica é a ambientação rural ou os traços rurais de um urbano incipiente. Um locus amenus, estivéssemos falando do imaginário mais literário do que plástico da época idÃlico-pastoral que antecedeu à modernidade na Europa. Mas é do modernismo nas artes plásticas brasileiras de que trata a Coleção Banco Real (ABN-AMRO) exposta no MAM-RJ e essa é a maior contradição desse movimento que, por aqui, ao mesmo tempo em que se propôs enfatizar a cidade também buscou um “brasileiro” anterior a ela.
A segunda caracterÃstica é a presença de um pathos, pois não é porque a coisa se passa em uma paisagem “natural” idealizada que vai haver harmonia entre homem e mundo. Pelo contrário, ao estabelecer um cronotopo arcaico e imutável, que não avança no tempo nem procura outros ares, o conflito se dá não só no tema mas também no tratamento do tema, em passagens que vão de um neoclassicismo já considerado velho mas persistente a tentativas de ambientação de um novo ainda mal aprendido. Uma polifonia que perpassa a carreira de vários dos artistas presentes e que, à s vezes, pode ser visÃvel em uma mesma obra, dependendo de que pedaço se olhe. Cândido Portinari e seus pés e mãos cubistas que não combinam com o resto do quadro; Manabu Mabe em um figurativismo surpreendente para quem gosta de suas manchas de cor; Di Cavalcanti a meio caminho entre um equilÃbrio entre os campos cromáticos e sua aversão a qualquer disciplina; Flávio Shiró a pintar com ares de floresta tropical o Parque D. Pedro II, que fica no meio de São Paulo; ou ainda CÃcero Dias e vários outros que se seduziram pelo realismo social da época.
Esse conflito se soma a um outro, o do erotismo, presente mais aqui do que em outras praias mas que, aqui ou além, vem sempre assolado, no modernismo, por resquÃcios de culpabilização judáico-cristã e por uma assertiva do poder masculino. (Ambos esses aspectos iriam sumir depois, na arte contemporânea e mais rápido sumiriam por aqui, onde preocupações morais não são o forte.)
Mas apesar disso tudo, assim como o pastor europeu pré-moderno, o pintor modernista brasileiro também não é o que aparenta. Parece se preocupar com um “brasileiro”, ovelha para lá de desgarrada, mas de fato, como o pastor que é sempre um poeta disfarçado, ele tem como ocupação principal a linguagem artÃstica. Assim, apesar dos equÃvocos, é possÃvel ver as questões próprias da arte, seus materiais e seus processos, como o tema principal que surge aos poucos, à medida que o visitante se aproxima da segunda parte da exposição, a que trata dos neoconcretos e abstracionistas informais.

Não que isso proteja esse grupo das caracterÃsticas anteriores, tão nossas. A horizontalidade de uma paisagem não formulada está lá na obra de Fayga Ostrower, um idÃlico perturbado explica os tÃtulos de Farnese de Andrade (Êxtase, Sonho). E Iberê Camargo é todo pathos em seu EquilÃbrio que tem tudo menos equilÃbrio entre suas grossas pinceladas.
Assim, ao subjetivar o que deveria ser objetivo - da paisagem à geometria; ao idealizar um arcaico abrangente unindo cidade e campo em um não-tempo que só poderia produzir conflito; ao exacerbar e depois abandonar um pathos erótico masculino e “pecaminoso”; e principalmente ao descobrir, entre desvios, a própria arte como tema, o modernista brasileiro sai dessa exposição apto a ingressar na contemporaneidade, mas levando pouca bagagem. O que é ruim mas também foi bom. Sem a mala sem alça de uma tradição rÃgida, a viagem se fez mais rápida.
Elvira Vigna é escritora e crÃtica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.



















