Aguarras 35 Aguarras 34 Aguarras 33 Aguarras 32 Aguarras 31 Aguarras 30 Aguarras 29 Aguarras 28 Aguarras 27 Aguarras 26 Aguarras 25 Aguarras 24 Aguarras 23 Aguarras 22 Aguarras 21 Aguarras 20 Aguarras 19 Aguarras 18 Aguarras 17 Aguarras 16 Aguarras 15 Aguarras 14 Aguarras 13 Aguarras 12 Aguarras 11 Aguarras 10 Aguarras 09 Aguarras 08 Aguarras 07 Aguarras 06 Aguarras 05 Aguarras 04 Aguarras 03 Aguarras 02 Aguarras 01.jpg

ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

Facebook Twitter RSS
03/08/2006

A Cidade Perdida de Cada Um

Andy Garcia saiu de Cuba aos cinco anos de idade, fugindo para os EUA com o pai. Na  “bagagem”, apenas memórias de crianças, fotografias e LPs antigos. A história de Lost City, não a contada no filme, mas a que antecede a sua realização, já daria um bom documentário. Um roteiro de 300 páginas, um roteirista recém-falecido, 18 anos para tirar o projeto do papel, um ator que assina a trilha sonora, refaz o roteiro pensando nela, segue para a direção e, no meio disso tudo, tenta exorcizar as lembranças do menino que abandonou o país onde nasceu. Ufa. A mitologia parece boa, apesar de exagerada, e são exatamente os exageros que prejudicam o andamento de A cidade perdida.

Cidade Perdida

Historicamente, o filme acompanha as revoltas contra Fulgencio Batista, aborda certos  grupos que tentaram tirá-lo do governo e, enfim, dá voz a Che e Fidel Castro, quando os revolucionários tomam conta do poder, esquecem os ideais democráticos e bem… o final da história saberemos em breve quando Fidel deixar o hospital.

Em meia hora, fica claro que esse recorte é demasiado complexo para um filme supostamente leve e simples. Acrescentemos então os seguintes elementos: uma família de classe média com um filho mais novo que se alia a Fidel, um pai professor universitário que acredita na resistência pacífica e nos valores da família, um irmão do meio que parte para atentados armados menos ideológicos e que é à favor da democracia, mas não de Fidel, uma mãe que faz o papel de papel de parede e mal fala, um tio festeiro que é dono de terras e Andy Garcia, irmão mais velho que adora sua família, tem um affair pela esposa do irmão do meio, mantém um cabaré movido a números musicais de todos os gêneros, transita entre os poderosos e ainda tenta proteger a família. Parece muito? Coloque então as participações de Distem Hoffman (mafioso que quer o cabaré), Bill Morra (comediante sem nome, deslocado e sem função) e Jsu Garcia (che guevara ligeiramente endiabrado), e mais um punhado de atores de TV conhecidos dos mais diversos seriados. O resultado é uma colcha de retalhos de duas horas e meia.

Nessa avalanche de recordações do pequeno Garcia, construídas em cima de música, fotos, histórias e muito pouco em cima das lembranças legítimas, os diálogos simples não têm vez. Sempre que alguém abre a boca, sai uma frase de efeito, um discurso político, uma ideologia mais forte do que as palavras. Andar na praia, mais do que um passeio, é derreter-se pelas paisagens de Cuba, uma ode ao que o país poderia ter sido.

As pessoas são arrumadinhas demais e os cenários impecáveis. A impressão que se tem é de não existir vida naquelas lugares antes de o filme ser rodado. Uma impressão estranha já que o filme de baixo orçamento e de rápida produção aproveitou muito das locações da República Dominicana.

Por fim, ficam os questionamentos. É possível falar de Cuba com um olhar externo? O que há de real hoje que seja compatível com as lembranças dos que fugiram do país para poder seguir suas vidas? Qual o valor da riqueza dessas memórias em uma produção esmerada como Cidade Perdida? Mesmo sem demonizar Fidel e eximir de culpa os governantes anteriores, o olhar do diretor não consegue fugir do seu rancor.

Cada um traz em si uma imagem do passado, a sua cidade perdida. A de Andy Garcia está retratada na saga de Fico Fellove.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

A Cidade Perdida de Cada Um



tags:


artigos relacionados