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Andy Garcia saiu de Cuba aos cinco anos de idade, fugindo para os EUA com o pai. Na  “bagagem”, apenas memórias de crianças, fotografias e LPs antigos. A história de Lost City, não a contada no filme, mas a que antecede a sua realização, já daria um bom documentário. Um roteiro de 300 páginas, um roteirista recém-falecido, 18 anos para tirar o projeto do papel, um ator que assina a trilha sonora, refaz o roteiro pensando nela, segue para a direção e, no meio disso tudo, tenta exorcizar as lembranças do menino que abandonou o país onde nasceu. Ufa. A mitologia parece boa, apesar de exagerada, e são exatamente os exageros que prejudicam o andamento de A cidade perdida.

Cidade Perdida

Historicamente, o filme acompanha as revoltas contra Fulgencio Batista, aborda certos  grupos que tentaram tirá-lo do governo e, enfim, dá voz a Che e Fidel Castro, quando os revolucionários tomam conta do poder, esquecem os ideais democráticos e bem… o final da história saberemos em breve quando Fidel deixar o hospital.

Em meia hora, fica claro que esse recorte é demasiado complexo para um filme supostamente leve e simples. Acrescentemos então os seguintes elementos: uma família de classe média com um filho mais novo que se alia a Fidel, um pai professor universitário que acredita na resistência pacífica e nos valores da família, um irmão do meio que parte para atentados armados menos ideológicos e que é à favor da democracia, mas não de Fidel, uma mãe que faz o papel de papel de parede e mal fala, um tio festeiro que é dono de terras e Andy Garcia, irmão mais velho que adora sua família, tem um affair pela esposa do irmão do meio, mantém um cabaré movido a números musicais de todos os gêneros, transita entre os poderosos e ainda tenta proteger a família. Parece muito? Coloque então as participações de Distem Hoffman (mafioso que quer o cabaré), Bill Morra (comediante sem nome, deslocado e sem função) e Jsu Garcia (che guevara ligeiramente endiabrado), e mais um punhado de atores de TV conhecidos dos mais diversos seriados. O resultado é uma colcha de retalhos de duas horas e meia.

Nessa avalanche de recordações do pequeno Garcia, construídas em cima de música, fotos, histórias e muito pouco em cima das lembranças legítimas, os diálogos simples não têm vez. Sempre que alguém abre a boca, sai uma frase de efeito, um discurso político, uma ideologia mais forte do que as palavras. Andar na praia, mais do que um passeio, é derreter-se pelas paisagens de Cuba, uma ode ao que o país poderia ter sido.

As pessoas são arrumadinhas demais e os cenários impecáveis. A impressão que se tem é de não existir vida naquelas lugares antes de o filme ser rodado. Uma impressão estranha já que o filme de baixo orçamento e de rápida produção aproveitou muito das locações da República Dominicana.

Por fim, ficam os questionamentos. É possível falar de Cuba com um olhar externo? O que há de real hoje que seja compatível com as lembranças dos que fugiram do país para poder seguir suas vidas? Qual o valor da riqueza dessas memórias em uma produção esmerada como Cidade Perdida? Mesmo sem demonizar Fidel e eximir de culpa os governantes anteriores, o olhar do diretor não consegue fugir do seu rancor.

Cada um traz em si uma imagem do passado, a sua cidade perdida. A de Andy Garcia está retratada na saga de Fico Fellove.