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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 26, julho & agosto de 2010

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6/8/2006

A lucidez na loucura de Estamira

As amarras do distanciamento ameaçavam banir o documentário para o campo da técnica-arte. O conceito de que o documentarista consegue se anular a ponto de não interferir no processo de registro, criando uma suposta imparcialidade na visão apresentada, é no mínimo inocente. A sensibilidade de Coutinho em Edifício Máster e o deboche espetáculo de Michael Moore em Fahrenheit 9/11 (com continuação prevista pra 2007) mostram de pontos diferentes como ainda há muito a ser explorado na linguagem do documentário. Uma imagem recente dessa evolução é Estamira, documentário de Marcos Prado sobre uma senhora de 63 anos, esquizofrênica, que trabalha há 20 no lixão.

Estamira

Declaradamente envolvido com a personagem, Marcos alterna preto e branco e colorido para ressaltar as nuances de alegria e tristeza, pseudo-lucidez e depressão, da vida de Estamira. Nas fogueiras do lixão, na tempestade que se abate sobre os catadores, nos urubus misturados aos sacos plásticos que voam e em cadáveres sem nome, há poesia. Há poesia numa vida dura como a de Estamira, quando seu lado esquizofrênico rebela-se contra o real.

Inteligente, o documentarista primeiro apresenta a personagem, o seu presente no lixão, e só depois começa a revirar o passado, soterrado no lixo dos sedativos.

Estamira mistura conceitos religiosos, políticos e sociais formando um vocabulário próprio. Consegue separar deus de espiritualidade e morte. Trata o planeta como Gaia (sem usar o nome), um ser vivo, consciente que sofre e rebate os maus tratos. Sabe a importância de não desperdiçar, o valor do lixão na reconstrução da sua vida. Sua lucidez fantástica (em todos os sentidos) contrasta com a ignorância do filho evangélico – além de não entender a esquizofrenia de Estamira, acha que a mãe está possuída por uma entidade maligna e quer interná-la em um manicômio.

Estamira diz coisas impressionantes. Como negar a sabedoria de uma mulher que fala “Não existe mais o inocente no mundo. Existe o esperto e o esperto ao contrário”, “A criação é abstrata. A água é abstrata, o fogo é abstrato e a Estamira também é abstrata”, “A minha missão, além de ser a Estamira, é revelar somente a verdade e capturar a mentira”, “Eu sou a Estamira, sou a beira do mundo, estou lá, estou cá, estou em todo lugar”.

Durante o documentário, Estamira alerta para o Trocadilho. Segundo ela, o Trocadilho é o que faz as pessoas viverem na ilusão, quem engana o homem e o faz acreditar em coisas que não existem. Ela é contra a exploração do povo pelos pastores. Contesta a adoração de Jesus pelo sofrimento, já que tantos como ela sofrem ainda mais. Diz que os homens devem ser iguais, independente de cor e de sexo e defende a dignidade para todos. Tem vergonha pelo homem, um bicho evoluído, agir pior que os quadrúpedes.

Apesar da sabedoria e do sorriso de Estamira, Marcos Prado não nos poupa de assistir a alguns dos surtos esquizofrênicos da protagonista, lembrando que no meio da mágica, por trás do truque, existe o mundo real. Em um desses momentos, Estamira fala em um rádio quebrado, usando uma língua imaginária. Em outro, nos conta como os astros ruins têm inveja do cometa que vive em sua cabeça, e raiva por ele ter escolhido um corpo frágil como o dela. Para quem não sabe, a esquizofrenia provoca alucinações auditivas, o tal cometa.

Existe um pouco de Estamira em cada um de nós. Resta-nos sair do cinema e pensar como seria hoje essa senhora se não tivesse levado a vida que levou. Como ela própria diz “Eu sou a Estamira, sou a visão de cada um. Ninguém pode viver sem mim”.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.