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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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20/08/2006

Abra um sorriso e diga: Obrigado por fumar!

Se O senhor das armas tinha humor, mas apostava mesmo era no drama, Obrigado por fumar faz o inverso e se sai melhor. Transformar as normas do politicamente correto em ironia refinada é a essência desse filme dirigido e escrito por Jason Reitman, que tem como missão deixar a indústria de tabaco e os fumantes na berlinda.

Aaron Eckhart vive Nick Naylor, um lobista que defende a indústria de cigarros diante da mídia americana. Ele é um especialista em derrubar argumentos de instituições de saúde, ONGS, associações de mães, velhinhas, garotinhos cancerosos, senadores e qualquer outro que atravesse o seu caminho. Como diz ao filho, ele não precisa provar que está certo, apenas que os outros estão errados. É um especialista no assunto.

Thank You For Smoking

Quando está de folga, Nick se reúne com dois grandes amigos. Uma representante do setor de bebidas alcoólicas e um do setor de armas. Juntos, formam o esquadrão da morte. Eles se divertem com a desgraça alheia, disputam quem mata mais por ano e, enquanto comem sanduíches gordurosos, decidem como vão continuar lucrando bilhões.

Apesar da vida ocupada, Nick também arruma tempo para cuidar do filho (que mora com a mãe) e começa a ensiná-lo tudo sobre o seu emprego. Vivido por Cameron Bright (o mesmo ator de A Profecia – será que isso também foi uma piada?), o menino vai revertendo a idéia que fazia do pai e termina considerando-o o deus da manipulação, um modelo a ser seguido. Numa ótima cena, Nick Naylor vai à escola do filho falar de sua profissão e incita as crianças a não aceitarem os argumentos dos adultos. Liberdade de escolha é tudo o que ele prega, seja pelo pedaço de chocolate ou pelo primeiro maço de cigarros.

O humor negro petróleo do filme é inteligente do início ao fim, desses que faz rir de nervoso sem a menor culpa. Até o cowboy do Malboro revive como um louco raivoso esperando o dia de ser subornado. Ninguém escapa. Não há mocinho, só bandidos. Nenhum dos personagens carrega a bandeira da moral. Ela foi devidamente enrolada e tragada com alto teor de alcatrão e nicotina. Nem mesmo a indústria de cinema, que por anos cultivou a imagem do glamour associada ao cigarro, escapa do olhar do diretor. Você consegue imaginar filmes clássicos editados para eliminar os cigarros? Greta Garbo e James Jean segurando canecas e pirulitos coloridos? O diretor conseguiu.

Obrigado por fumar é composto de detalhes. Os diálogos, os ambientes, a iluminação, olhares rápidos, imagens menores no fundo, pontos turísticos, tudo ajuda a compor o clima de sarcasmo e a prender o espectador. Custou US$6,5 milhões e até agora arrecadou US$27 milhões. Além de Eckhart e Bright, conta com as atuações de Sam Elliott, Robert Duvall, Rob Lowe, Katie Holmes e Maria Bello. É um presente para quem tem cérebro e ainda tem coragem de fazer a inevitável pergunta: alguém que fuma realmente acha que o cigarro não faz mal?

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

Abra um sorriso e diga: Obrigado por fumar!



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