Arte Passando de Lá para Cá - Bienal Internacional de Arte e Tecnologia

les pissenlits
É uma arte fÃsica, essa. Você faz o que faz com o sopro, o movimento do corpo, gestos.
Não, não é a arte das cavernas, a argila moldada com a mão, o dedo no sangue para a cor vermelha do dorso do bisão.
É a terceira edição da Bienal Internacional de Arte e Tecnologia, presente em julho, agosto e setembro de 2006 do Itaú Cultural de São Paulo e que teve o tÃtulo modernoso de Emoção Art.ficial 3.0.
Se você for pensar, o que está lá não é muito diferente de e-mail, com seu perto-longe. É mesmo um lugar-comum quando se fala na linguagem da comunicação computadorizada: nada tão Ãntimo quanto a mensagem mandada para alguém que não se conhece. Nenhuma comunicação tão oral e direta quanto essa, intermediada e escrita.
É igual. E igual os seus limites, que migram, não mais os nossos, de quem emite a comunicação-arte, mas os da intermediação.
E se não temos os nossos limites (timidez?, pouco repertório?, inépcia?) para nos brecar, ficamos apenas com os da midiatização. Ou não ficamos, já que o que está entre nós, emitentes, e o que emitimos, ou seja, o que está no meio, mÃdia, é bem amplo, abrangente. Podemos usá-lo sem chegar perto do que seria uma de suas bordas, quando então passará a entrar em algum tipo de looping, ainda que randômico (o caos, aqui, é apenas um algoritmo mais sofisticado).
É a sua atração. Temos a fisicalidade da criação sem o ônus da liberdade. Usá-la seria se arriscar a esbarrar no fracasso (o nosso mesmo, pessoal e intrasnferÃvel), na frustração, no limite, na necessidade de humildemente repetir e repetir até conseguir ultrapassar uma nossa incapacidade.
Esse é o ponto de vista de quem cria-junto, não o do criador da peça, o autor cujo nome se lê na plaquinha - esse com total liberdade, na medida em que domine seu instrumento. Quem não tem o ônus da liberdade mas não sabe disso é você, o que vai lá para interagir, criar-junto. E esse, o ponto de vista de quem cria, ou crê que cria, é um dos pontos de vista instados a emergir, já que as peças são quase todas interativas.
Há o ponto de vista do fruidor e aà a coisa funciona melhor.
Você sopra e a paina se espalha em uma parede que não é mais parede mas ar livre, infinito. É a instalação de Edmond Couchot e Michel Bret, Les Pissenlits (2006). E aà não mais importa que a paina se espalhe de forma perfeita e com x possibilidades de variação, a depender da força com que você soprou os três pequenos cilindros (um para cada face da parede que, formando um U aberto, imita assim uma terceira dimensão). É lindo de qualquer maneira.
Em Messa di Voce (2003), Golan Levin e Zachary Lieberman usam a voz de quem está ao microfone para criar desenhos, padrões de cor. Se são dois (há dois microfones) a falar, cantar ou emitir ruÃdos, cria-se um diálogo de formas, cores, as duas vozes sendo captadas de forma distinta pelo programa que você esquece que existe.
De uma máquina de escrever antiga, aquelas de modelo alemão, que quem tiver mais de 50 anos terá conhecido, sai um “papel” que na verdade é uma tela fina onde se projetam as letras batidas nas teclas. As letras se transformam em seres vivos a tentar escapulir do “papel”. É Life Writer (2005) de Christa Sommerer e Laurent Mignonneau e é também a materialização do terror de qualquer escritor.
Eden, de Jon McCormack, de 2000, é um jogo de transparências. Quatro paredes translúcidas com registros de pequenas formas primárias e orgânicas a se sobrepôr, formando composições diferentes à medida que você anda na frente delas. As formas fazem lembrar os desenhos do grafiteiro americano Keith Haring e a descoberta do que seria o caldeirão criativo de suas figuras, o eden, o paraÃso primordial dos grafiteiros, ou um proto-grafite em ebulição, é uma das experiências mais interessantes da mostra.
Camille Utterback e Romy Achituv apresentaram o Text Rain, de 1999. Letras caem sem parar, projetadas em uma parede. Quando você passa em frente, a sua silhueta refletida na parede impede as letras de caÃrem por alguns instantes. E elas então formam algumas palavras em volta de seu ombro, cabeça. Você pode ajudar, por exemplo esticando a mão para impedir que alguma outra letra caia. Uma metáfora que quem escreve apreciará, na sua luta constante e perdida para que as letras não caiam em algum abismo e sumam.
O Cheap Imitation (2002) de David Rokeby sai do padrão dos outros. É uma brutal ironia. Ao andar na frente de sua tela-projeção, os movimentos que você faz são decompostos com uma idêntica geometrização da usada pelos cubistas. Eu fiz, não o Braque de Nu Subindo Escada, mas o Braque de Mulher Vestida Passando de Lá para Cá. Não será possÃvel ver os cubistas da mesma maneira depois disso.
Há uma instalação com uma falha de apresentação. Em Thoughtbody Environment Interface (2006), Bill Seaman apresenta, sem interatividade, fluxos ininterruptos de formas abstratas ou quase, junto com uma narração encantatória, hipnótica. O ritmo todo é lento mas um pouco tenso e para quem está na Av. Paulista, sentar ali na frente é uma continuidade, ao mesmo tempo que uma outra possibilidade do que foi vivido até minutos atrás. Pois bem. As legendas com a tradução do que é narrado foram postas em cima das imagens, à la televisão, e sua presença branca e parada quebra completamente o efeito desejado pela obra. Uma pena.
O que dá para pensar, a respeito dessa bienal e de outras mostras de arte computadorizada interativa é que o problema está em uma dicotomia entre o que é arte e o que é computação interativa, no seu aspecto de atividade falsamente livre, não para quem cria o programa mas para quem com ele é instado a interagir. É uma questão ampla, que ultrapassa a arte computadorizada interativa e transborda para a cultura que a gerou. O que de fato, no nosso dia-a-dia, fazemos ou achamos que fazemos, que ação (ou simulacro de ação) é essa que achamos que é nossa, convidados que somos a “interagir” com engrenagens programadas que, de tão amplas, parecem não existir?
Se a arte pode ser medida por sua eficácia de espelho, por seu papel de mostrar o tempo e espaço de sua criação, suas circunstâncias de produção, essa arte aqui abordada é, então, exemplar.
Junto às obras há pequenos textos explicativos, em forma de poemas, cuja autoria não foi especificada pela instituição organizadora. Como exemplo, dois deles. O primeiro é o da instalação de Bill Seaman, o segundo de uma instalação de robôs-cachorros que reagem a sons e gestos, feita em 2004 por France Cadet.
Interação cor purificada
Foca padrões em fluxo
Ações (observadas)
Abstraindo as qualidades
Operativas
Em um novo contexto
[Analogias vivas recombinantes]O discernimento emerge
Sonho milagroso
Intencionalidade das máquinas
[Alcance]
Elvira Vigna é escritora e crÃtica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.



















