entrevista: Eduardo Martins
Entrevista exclusiva com o fotógrafo Eduardo Martins para o Aguarrás
1. Como começou essa brincadeira chamada fotografia? Existe um divisor de águas do Eduardo e do Eduardo fotógrafo?
Não sei dizer ao certo. Pode-se separar por datas, eventos ou atitudes que tomei, mas não saberia apontar um divisor de águas. Durante a faculdade fui monitor de fotografia e, além de ficar no laboratório, revelando e ampliando com os alunos, fotografava eventos internos da faculdade e trabalhos dos alunos em estúdio.
Pode-se somar também uma certa influência familiar. Meu pai fotografa por hobby.
Há 2 anos ou mais, juntei meses de salário para comprar minha primeira câmera, e aí sim, começar a clicar com regularidade. Antes disso, só me arriscava em trabalhos acadêmicos.
Com a freqüência de saídas para fotografar e o interesse aumentando, procurei cursos e workshops. Cursei a pós-graduação em Fotografia, Linguagem e Expressão, na Cândido Mendes. Nela, ganhei muita bagagem, principalmente teórica e histórica, conhecendo trabalhos, aguçando o olhar, treinando a vista.
Ainda no trabalho, eu era do setor de tratamento de imagens, e lidava com fotografia todos os dias, mesmo que indiretamente. Após quase 3 anos no setor, pedi para ser transferido para o estúdio de fotografia, se e quando houvesse a oportunidade. Após a transferência comecei a fotografar produtos diariamente.
Como lazer, fotografava shows, procurava cursos, workshops e continuava sempre lendo e vendo fotografia.
Minha história com o nu começou há pouquíssimo tempo. Em dois workshops com o Rubber, um dos 3 únicos professores de fotografia do nu no estado, treinei o olhar para esse ramo e a buscar uma visão, uma posição diferenciada, algo como buscar exclusividade não só da foto, mas no olhar. A liberdade que o Rubber dá para que se dirija a modelo, e especifique o que você quer é ótima, e só colabora. Ele faz questão de deixá-lo a vontade para escolher e fazer o que quiser, e isso foi essencial para não só treinar o olhar, como aprender como dirigir.
2. Qual o instinto primordial do fotógrafo no nu artístico?
Acho que para fotografar nu, ou qualquer outra coisa, de maneira que lhe dê um diferencial, um destaque, é preciso prestar a atenção em cada detalhe, em cada canto do visor, em cada centímetro da cena. Notar as texturas, as brincadeiras que o olho pode pregar. É preciso gostar do que faz e conhecer o que faz. Ter uma bagagem de conhecimento sobre o que você está fotografando (e acho que isso vale para qualquer coisa) é essencial. Você pode conseguir fotos de nu excelentes na primeira tentativa, mesmo sem nunca ter visto uma foto de nu anteriormente, mas com uma bagagem acumulada, com referências, e principalmente, pensando em formas, movimento, equilíbrio, você consegue um trabalho de melhor qualidade.
A foto é um momento único, que fica congelado e eternizado no papel (ou pixel, nestes tempos). É o momento decisivo, como Bresson dizia. Você clica, faz a foto. Você não clica e pode conseguir um momento parecido, mas nunca a foto que você visualizou e não fez.
Eu encaro o nu da mesma maneira que fotos de show e teatro, por exemplo. É natural. Não vejo um instinto em específico que não seja só o tesão pela fotografia. Procuro capturar a luz, as formas, os movimentos que o corpo faz, as curvas, contrastes e sombras, o momento exato. Não me importa se a foto sai com o corpo inteiro, cortado, isso não é uma fórmula. O modelo ajuda, claro, tendo ou não corpo bonito, pele, expressões, mas se você souber procurar, você vai achar a sua foto. A foto está na sua frente, mas cada um enxerga de um jeito.
Nesse ponto, acho que ter cursado a faculdade de desenho industrial me deu bastante desenvolvimento na procura por formas, texturas, contrastes. Aguçou o olhar crítico.
3. Qual a sua opinião sobre o formalismo da composição diante do tema? O que o nu pede que as demais fotografias não?
Para fotografar nu, acho que deve-se conhecer e valorizar ao máximo o corpo, observar suas formas, curvas, saber o que deve ser valorizado, o que você pode esconder. A diferença entre o nu e outras expressões fotográficas é o ganho de atenção voltado ao corpo.
4. Parece-me que o nu perdeu o caráter transgressor e se tornou elemento visual. Você acha que o corpo, hoje, tem o mesmo valor de um sofá, uma porta, um jogo de luzes?
Não tem exatamente o mesmo valor. Sendo o nu a temática, ele é o centro da foto, mas nada impede que o corpo se torne um elemento visual, apenas, justamente como você perguntou, comparando com um sofá ou uma porta. É importante notar que o conjunto, o equilíbrio da foto deve ser o principal, e então, se a foto pede que a modelo esteja quase totalmente escondida, e apenas uma pequena parte da foto mostre a modelo, que isso seja feito. Em uma das fotos minhas que está na exposição, uso uma modelo totalmente desfocada, e a atenção se dirige para um manequim. É uma referência, uma brincadeira com o corpo. O nu está lá, mas o manequim é o assunto focado. É um jogo de mostrar e esconder.
Também cabe aqui uma comparação entre o nu como meio de expressão puramente artística e o nu comercial, como o de revistas masculinas. Lá não cabe deixar em segundo plano a modelo. Não cabe que uma foto como a do manequim seja publicada. Lá, o objetivo é mostrar a modelo nua, pura e simplesmente.
5. O preto e branco foi apenas questão estética?
Originalmente, as fotos eram coloridas. São todas digitais, e foram pós-processadas em preto e branco. Acho que o tema pedia isso. Valorizava o contraste entre as sombras e o cenário. Ressaltava as texturas da água, no caso específico de uma das fotos. E também foi com o objetivo de coletivizar as fotos. Não queria expor 6 fotos, 3 coloridas e 3 em P&B, por exemplo. Queria um conjunto, uma harmonia entre as fotos, criar um link a mais entre elas.
6. O espelho, mesmo sendo um elemento tradicional da linguagem visual, sempre traz uma força diferenciada. Estão ali duplicados o poder de ilusão e o aprisionamento da imagem. O espelho desafiando o fotógrafo em seu papel. Como o espelho foi trabalhado nas suas fotos? O que você viu que ninguém mais viu?
Procurei trabalhar os reflexos para gerar harmonia entre as formas. O reflexo deixa a modelo em evidência, duplica a ação, e as vezes mostra coisas diferentes também. Uma simples diferenciação de angulo pode mostrar uma coisa completamente diferente no seu reflexo, como em uma das fotos da exposição, onde você tem um reflexo completamente diferente do que está na realidade, apesar de se julgar estar vendo exatamente a mesma coisa. A água, como elemento de criação junto ao espelho foi para separar um pouco essa duplicidade de informações que o espelho gera.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.







































