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O cinema cor de barro mantém um padrão de qualidade no Brasil. Títulos como Cidade baixa, Lavoura arcaica e Cinema, aspirinas e urubus mostram que o casamento de um bom roteiro com direção firme e boas atuações ainda é a melhor opção frente ao besteirol de outras produções nacionais. Raros são os casos em que o ambiente urbano consegue atingir o espectador com a mesma intensidade. A exceção mais recente talvez seja Achados e perdidos, um filme policial noir com bons atores e uma atmosfera que vai além da sua história. Anjos do sol, vencedor de 6 prêmios no Festival de Gramado, faz a ponte entre esse cinema poeira e o cinema asfalto, começando em um ponto perdido no mundo de barro, atravessando florestas, rios, estradas e rodoviárias até chegar ao caos urbano do Rio de Janeiro.

Anjos do SolO filme é totalmente centrado na prostituição infantil no Brasil. Conta a história de Maria, menina vendida pelos pais para trabalhar na cidade grande e ter uma vida melhor. O mote da inocência da família e da menina rege o filme até a entrada de Nazaré, personagem de Vera Holtz, uma espécie de agente que vende as meninas trazidas pelo atravessador Tadeu para os cáftens da área.

De mão em mão, Maria vai parar no meio do garimpo na pensão de Saraiva, um empresário, como prefere dizer. O garimpo aqui é retratado como o fim do mundo, uma fenda na terra que leva ao inferno das pepitas de ouro. É impossível escapar de lá. Quem foge, morre. O lugar sem estradas e pistas de pouso e decolagem não é o caminho, é o destino final.

Obviamente, Maria se rebela contra a vida à qual foi destinada. Combinando o jogo de cintura de Celeste e a coragem de Inês, Maria se arrisca numa fuga sem chance de retorno. Os animais lá fora não são tão ameaçadores quanto os animais que pagam para se deitar com ela. Há mortes pelo caminho, amigos que ficam, lágrimas, dor, arrependimento, mas não há medo da morte quando já se está morto.

Nessa viagem do céu ao inferno, o ponto final, como esperado, é o purgatório, e o Rio de Janeiro ainda é o símbolo máximo desse plano intermediário. Nele, é a cafetina Vera que funciona como ponto de comparação. Ela mostra que não interessa se você está em um grande centro urbano ou além das fronteiras da civilização, a ineficácia das leis é a mesma. Essa é a regra universal, não interessa onde esteja, a lei não funcionará à seu favor.

Anjos do sol é um filme denúncia. Felizmente, não se esquece de ser cinema e é entretenimento de primeira categoria. Além da bela fotografia e do roteiro enxuto, traz atuações muito inspiradas. A lista é grande: Fernanda Carvalho (Maria, 11 anos), Bianca Comparato (Inês), Chico Dias (Tadeu), Darlene Glória (Vera), entre outros. Os destaques ficam por conta do demoníaco Saraiva de Antônio Calloni e a hilária prostitua Celeste, vivida por Mary Sheyla.