San Pedro: interferĂȘncia

No final dos 1960 e inĂcio dos 1970 apareceram na Europa e Estados Unidos umas performances femininas (e Ă s vezes masculina, como com Joseph Beuys em seu Coyote) com o corpo humano sendo mostrado em situação de perigo e violĂȘncia. A idĂ©ia era a recuperação, atravĂ©s da dor e do choque, da fisicalidade em um momento em que o indivĂduo sentia a perda de valor advinda da Guerra Fria e do que na Ă©poca era considerado como ameaça iminente, a bomba atĂŽmica.
Em San Pedro: interferĂȘncia, o grupo Alpendre Casa de Arte e Pesquisa recupera o clima dessas performances. O vĂdeo de 14 minutos fez parte do Dança em foco, um festival de dança filmada em vĂdeo que ocupou o Centro Cultural Telemar (RJ) no inĂcio de setembro de 2006. Nele, uma bailarina dança no espaço destruĂdo de um edifĂcio abandonado, o San Pedro (de Fortaleza), com cacos de vidro e pedras no chĂŁo.
A novidade Ă© o vĂdeo.

Em um primeiro pensamento, o vĂdeo afastaria o impacto de alguĂ©m que dança sobre vidros com os pĂ©s descalços. No segundo pensamento, vem um outro impacto, o de que vivemos, e vemos, hoje, com um olhar-cĂąmera que envolve o mundo em uma granulação estabilizante, que diminui a profundidade do nosso foco e que Ă© o que nos pĂ”e no mesmo plano real-irreal do que estamos vendo. O olhar-cĂąmera vai do plano-geral a uma atenção mais prĂłxima, planos mĂ©dios, em um ritmo nĂŁo engajado. A montagem segue o mesmo compasso de quem vĂȘ aqui, ali, o todo, com um incĂŽmodo, sim, mas pouco emotivo. NĂłs.
O jogo de atenção dirigida versus sensação geral estabelece uma identidade entre o espectador e a mĂdia que apresenta, recorta e junta os fragmentos de imagem. Mas Ă© mais do que isso, Ă© o prĂłprio fluxo da imagem, aplastrada em sua pouca resolução, que estabelece a identidade com esse nosso olhar que nĂŁo olha, contemporĂąneo.
A bailarina dança sozinha na frente de uma janela que dĂĄ para o nada. A impressĂŁo Ă© de um certo contentamento com esse nada, eternidade bem-vinda para a qual todo o espaço do edifĂcio se dirige: Ă© o Ășnico ponto claro. Essa sucção em direção Ă janela se dĂĄ no mesmo momento em que a obra se apresenta como um Ășltimo signo de memĂłria, da existĂȘncia fĂsica. E tambĂ©m como Ășltima possibilidade de linhas sinuosas a se contrapĂŽr aos quadrados rĂgidos da janela para a qual a bailarina dĂĄ as costas e na qual dilui seus contornos.
O vĂdeo nasceu de uns poemas escritos - e publicados artesanalmente - por Eduardo Jorge, um dos diretores da peça, junto com Alexandre Veras. A coreografia Ă© de Andrea Bardawil.
Elvira Vigna Ă© escritora e crĂtica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Ăltimo livro publicado: "Deixei ele lĂĄ e vim", 2006, Companhia das Letras.



















