Raphsody in blue
Em Waking Life, de Richard Linklater, um dos personagens diz que não devemos prestar atenção às palavras, atentando sempre aos gestos. A afirmação tem um caráter cômico, já que o filme é filosófico e verborrágico do início ao fim, o que não diminui o seu valor.
O clipe de Ilana Vered domando seu piano em Raphsody in blue tem seus paralelos e adiciona novos sabores ao assunto. Se Nietzsche estava certo ao dizer que as letras das músicas são uma tentativa de Apolo controlar Dionísio, a exibição de Ilana mostra que Dionísio mantém sua fonte de vigor.

Não há uma só palavra durante a execução da rapsódia de Gershwin, e isso faz com que a complexidade inerente ao jogo social seja tratada com força cinematográfica. O peso está na imagem, no gelo que balança dentro do drinque, está na música que o piano de Ilana dispara. Experimentar da calmaria à tempestade em um piscar de olhos parece ser o objetivo da mistura de jazz, piano e orquestra pensada por Gershwin.
E realmente há uma orquestra inteira gravitando ao redor de Ilana. Na babel de instrumentos todos se entendem bem. Um flerte vem num olhar, um grito é um sopro forte no trompete, uma conversa casual surge no toque suave nas teclas. E Ilana? No centro do cenário, é ela quem manda. Tudo acontece por sua causa. Ilana parece dançar enquanto abraça e desmembra as teclas do piano, fazendo disso som. É importante ter em mente que a desenvoltura da pianista é o que dá vida ao instrumento.
E pensar que há poucos milhares de anos arrastávamos gravetos para criar o fogo. O clipe com Ilana é tudo o que Fantasia da Disney gostaria de ser. Concentrando-se nos gestos como sugere Waking Life, e na melodia como sugere Nietzsche, a melhor sugestão é esquecer as palavras e deixar-se hipnotizar.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















