Pratos feitos

os blocos do pf
O frio atinge de maneira tão aguda que me curvo. As costas já doem, não sei se por causa do frio ou da minha posição nada ergonômica. O inverno além de chegar atrasado me deixou mais caseiro ainda. Nada me faria sair de casa. Nada.
Recebo um convite. Quem mandou inventar que não ia sair de casa? Quem? Pelo menos é por uma boa causa, nessa cidade que parece nunca ter nada, quando temos uma coisa assim é sinal que temos que ir. Temos, entenda-se eu e minha pouca vontade de aparecer em público, o que está se tornando um problema.
Uma ajuda à minha vontade foi minha curiosidade e uma jovem de cabelos encaracolados, com um sorriso que… Moro em Criciúma, cidade do extremo sul catarinense, cidade suja, de ar pesado e clima quente, uma bacia de sentidos extremos.
A exposição acontecia na Fundação Cultural de Criciúma, na Galeria de Arte Contemporânea Willy Zumblick. A galeria tem como meta difundir a contemporaneidade em nossa cidade. Mas arte é um mundinho difÃcil de se entender, vai saber, vez ou outra sempre temos uma cara nova.

Rosângela Becker
A exposição versava sobre o trabalho conjunto de várias artistas e ali estavam algumas delas. A simpática, a elegante, a pseudo-inteligente, a que me atraia - estranho, isso sempre acontece - não se esqueça da curadora! Isso é importante.
A exposição coletiva tinha um único trabalho, um bloco de notas. Usei muito na época do comércio, olha só, não era um bloco de notas, tipo Moleskine, era um bloco de notas fiscais, daqueles em três vias. Cada novo jogo representava um artista e como tal uma nova visão daquele conceito.
O nome do bloco nomeava a exposição: PF. Prato Feito, aquele prato, feito por antecedência, com o básico da mesa brasileira, feijão, arroz, bife, ovos, batatas e como tal representa uma visão poética, ou faminta, do conceito de arte. A arte aqui é uma mistura de conceitos efêmeros e eternos. Na visão dos artistas participantes, uma coletiva que busca a originalidade e transmissão rápida de pensamentos e idéias, tantas e tão singulares que não sei por qual começar… seria injusto de minha parte olhar apenas para alguns.
Bem, quem estou querendo enganar? Eu nunca fui muito justo mesmo!
A apresentação foi direta e simples, versava sobre o método de produção:
uma idéia que poderia reunir os trabalhos do grupo de estudo, original e viável para a venda ou para distribuição, com um custo aceitável e fácil montagem. Embora a produção e acabamento tenham sido meticulosamente cuidados, a sensação de que o bloco saiu mesmo de uma Junta Estadual era legal.
Lembro-me, que ao colocar as mãos no meu exemplar, a primeira idéia, o primeiro desejo foi de queimá-lo, de transformá-lo, de poder de alguma forma fazer parte daquela construção, ainda que destruindo tudo que ela representava.
Os trabalhos ficavam expostos em uma mesa de madeira, nas paredes, ao redor, estavam presos na parede, folha por folha.
Fui fisgado particularmente pelos ambientes e pela descrição dos passos e da socialização do ambiente criado por Rosângela Becker.
A criatividade e intuição de Giorgia Mesquita, com sua ode à poesia, e o belo hábito de ser cativante, em sua fala e atitude, em partida de seu desenho, nos sublima, olhando e abraçando o vazio, tomando para cada um de nós o descompasso da vida. Como uma tarde de verão, perto de uma lagoa, o vento golpeando a face rubra.

“Abra os braços e deixe o vento passar”. Giorgia Mesquita.
Vanessa Schultz e sua construção, que é uma folha, que se dobra e dobra, e vira um caderninho.
Mas confesso, que o divertido foi perceber, como as pessoas se comportavam ao perceber o que era realmente a efetividade, o suor e a performance que descrevia Priscila Zaccaron.

Vanessa Schultz
Conversas acaloradas, eu observava, de longe, percebi o desenho, ri fui pegar um pouco de quentão e voltei rindo, esbarrei na menina de cabelos encaracolados, ficamos por ali conversando, papo legal. Nesse Ãnterim consegui conversar com a Giorgia Mesquita.
_ Você acha que o trabalho de vocês pode ser considerado algo agressivo ou calmo? Ela pensou um pouco:
_ Você que deve descrever, que deve dar ao trabalho o sentimento que ele merece. Ao passar para mim, no caso o espectador, ela respondeu sem responder e me colocou em situação de creditar ou não seu trabalho, fiquei sem graça de falar sobre minha vontade.
_ Hum. Pensei um pouco. _ Qual o sentido então de você criar, em conjunto, algo que dá um trabalho tremendo, que produz amor ou ódio, e deixar a cargo do cara que vê a obra, que a toca, ou compra, dar um sentido pra ela?
Devo ter assustado ela nesse momento, ela me olhou, com curiosidade, pensou um pouco.
_ A maneira como trabalhamos, ou produzimos nosso trabalho, tem uma certa ligação com o que desejamos, isso é claro. Nesse trabalho procuramos acima de tudo a unidade, a conformidade, não um decreto. A pessoa que recebe ou adquire um exemplar do Prato Feito, tem total liberdade para fazer o que quiser, inclusive queimar – coincidência, ou ela sacou minha vontade? – Mas porquê você tem essa fascinação pela agressividade? Que agressividade é essa? Me olhou, eu disse:
_ Agressividade? Sou um cara tão calmo!
Fomos interrompidos por sorrisos, aparentemente o pessoal conseguiu desvendar o mistério da “Dedicação à efetividade da performance. Priorização do suor.” Da Priscila Zaccaron.

Priscila Zaccaron
Ficava mais frio, o quentão ajudava, mas minha vontade não, a menina de cabelos encaracolados foi embora (sem final feliz). Peguei meu mais novo bloco de notas, fui até meu carro e zarpei para casa, tinha muitas coisas para deixar para trás.
Inclusive meu desejo de agressividade.
Artistas participantes: Adriana Barreto; Alex Cabral; Amanda Cifuente; Ana Paula Lima; BrÃgida Baltar; Bruna Mansani; Cássio Ferraz; Claudia Zimmer; Damé; Daniela Mattos; Débora Santiago; Edmilson Vasconcelos; Fabiola Scaranto; Gabrielle Althausen; Giorgia Mesquita; Jorge Menna Barreto; Julia Amaral; Laércio Redondo; Liomar Arouca; Melissa Barbery; Minerva Cuevas; Nara Milioli; Orlando Maneschy; Patricia Scandolara; Paula Tonon; Priscila Zaccaron; Raquel Stolf; Regina Melim; Renata Patrão; Ricardo Basbaum; Rosângela Becker; Sandra Reis; Silvia Guadagnini; Tâmara Willerding; Traplev; Vanessa Schultz; Yiftah Peled.
Alan Cichela



















