Skip navigation

Cacá Diegues aprimorou sua relação com Alice, a do país das maravilhas. Dessa vez, os personagens espalhados pelo caminho são mais do que placas de sinalização. Em Deus é Brasileiro, seu filme anterior, Cacá Diegues mostrava Deus em uma viagem de férias contemplativa, criando uma comédia leve sem grandes pretensões. Em O maior amor do mundo, Antônio (José Wilker) interage com quem encontra, aprende e ensina, e assim se transforma, respeitando o princípio básico do road movie. Cada ponto de parada deve modificar o personagem, levá-lo para outro lugar não só fisicamente, mas psicologicamente também.

O Maior Amor do Mundo

No filme, Wilker vive um astrofísico que volta ao Brasil para receber uma homenagem. Nesse retorno, passa no asilo onde está Maestro, seu pai adotivo, e conta que morrerá em breve, por causa de um tumor. Maestro (Sérgio Britto) é uma pessoa amargurada, foi casado com uma cantora lírica desafinada (Deborah Evelyn) e sempre fez questão de lembrar que o filho nasceu no dia em que o Brasil perdeu a copa para o Uruguai. A relação entre os dois nunca foi boa e nem a notícia da morte precoce diminui a tensão. Como presente de despedida ou golpe de misericórdia, Maestro dá a entender que conheceu a mãe verdadeira de Antônio. O astrofísico, transtornado, sai em busca do próprio passado.

Antônio é atraído por uma menina de pele alva, seu coelho branco, e acaba na favela da Baixada Fluminense onde morou sua mãe. Tendo uma foto em preto e branco como referência, ele esbarra em personagens que vão dando pistas, e aos poucos monta a sua história.

Alice seguiu o coelho e despencou no país das maravilhas, Orpheu resolveu ir até o inferno atrás de Eurídice. Antônio irá em busca do maior amor do mundo.

O Maior Amor do Mundo Cada universo tem suas Rainhas de Copas, Lagartas de narguilé e Gatos de Cheshire. No filme de Carlos Diegues, a paixão vem na pele de Luciana (Taís Araújo), uma das beldades da favela. O dono do narguilé é Mosca (Sérgio Malheiros), um garoto gente boa que nunca estudou na vida e que trabalha como aviãozinho do tráfico. É ele quem leva Antônio até Mãe Santinha (Léa Garcia), uma mãe de santo trambiqueira, no passado conhecida como Zezé, e por um acaso do destino, a melhor amiga da mãe de Antônio. Com ajuda desse Gato de Cheshire cartomante e seu sorriso enigmático, Antônio participa do dia a dia da favela, das mortes, dos acidentes, do envolvimento da polícia com o tráfico. Entende as necessidades e suas belezas. Ainda na superfície, acha que o seu dinheiro pode mudar a vida de todo mundo, mas a cada degrau que desce, a situação se complica um pouco mais.

Na ausência de sua mãe, Antônio tenta se integrar ao que ela viveu, descobrir os detalhes, resgatar o passado de alguém que sumiu no tempo, para congelar o seu próprio tempo, com medo do futuro. De certo modo, ele consegue.

O maior amor do mundo é um filme delicado, com atuações precisas e cada detalhe muito bem pensado. Além de uma história bonita, estão lá as denúncias e alfinetadas sociais que fazem parte do estilo de Diegues. Um dos pontos altos do cinema brasileiro nessa temporada.

assista ao trailer no youtube