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Rizhome

Há o subtítulo de “new museum” no portal onde se chega teclando http://www.rhizome.org/events/timeshares/. Mas não é de artes plásticas que se trata e sim de literatura, essa nova, visual e oral, filha da internet.

O portal Times Shares, administrado pela ONG Rizhome, abre para vários projetos, em uma programação atualizada periodicamente. Em meados de setembro de 2006 havia um poema em andamento, formado de forma automática com as frases e palavras que entram em tempo real na linha onde se tecla as buscas do Google.

Um exemplo:

smokey montain realstate
good morning america
beetles
famous children photography
flat tongue bitch
super boobs
indian scholarships

Ficar lá olhando o poema se formar é uma experiência ao mesmo tempo de pertencimento e de solidão. Foi iniciado em 2005 por Jon Thomson e Alison Craighead, da Inglaterra, e o endereço, para quem quiser ir direto, é: http://www.automatedbeacon.net/

Rizhome

Bem parecido com o do projeto seguinte, no endereço direto de http://artport.whitney.org/commissions/thedumpster/. De Golan Levin, Kamal Nigam e Jonathan Feinberg esse projeto tem o nome de Dumpster (depósito de lixo) e junta mensagens de gente que dispensou o(a) namorado(a). As mensagens, ao se somarem, formam pequenas novelas de amor fracassado e mais uma vez, a sensação é de solidão e pertencimento.

Exemplo:

  • Been up to this weekind, did santa came??? ha, you wish!!! Me and Anne broke up.
  • I broke yp with John. I am kinda happy about that cuz he kinda annoyed me a lot but then he was sweet. Anyway, enough about me, how uo have been?

E há o de Takuji Kogo, do Japão, de 2006. Um texto muito bom, com a animação de uma bonequinha, em looping, como suporte. Diz o trecho do texto:

I’m not happy seeing your look of unhappiness whenever you go to the mall.
I saw fantastic things, you should take a look in those luxury things you can’t afford.
I fell upon a web page. I saw fantastic things you should see. I can see your ecstactic face when you pick up your present that you can’t afford.

Tradução (minha):

Não fico feliz vendo sua cara triste sempre que você vai ao shopping.
Vi coisas fantásticas, você devia ir dar uma olhada nessas coisas luxuosas que são caras demais para você.
Caí em uma página da web. Vi coisas fantásticas que você devia ver. Já posso ver sua cara de êxtase quando você escolher um presente que não poderá comprar.

Rizhome E por aí vaí, a bonequinha se requebra e diz outras frases de igual teor de crueldade, com um sorriso e olhos meigos.

O projeto de Kogo não é interativo. Quer dizer, você pode mixar outras musiquinhas, mas a boneca se requebrará sempre do mesmo jeito dizendo sempre as mesmas frases. Não é interativo e é o melhor exemplo de uma arte que só pode ser feita pela internet, que tem características próprias desse instrumento tão poderoso e tão pouco compreendido. A interatividade - muitas vezes falsa, no sentido de apenas oferecer um leque muuuiiito grande de opções randômicas mas sempre dentro de parâmetros pré-estabelecidos pelo programador, este sim o verdadeiro artista - é apenas a face mais visível da coisa.

Há esse incrível processo, ininterrupto, de criação-dissolução-nova criação de identidades culturais, que tem sua eficácia ligada às condições de produção e às de recepção, típicas da internet.

Você produz em língua estrangeira. Digo isso não só me referindo aos não-anglofônicos, mas porque se trata da última tecnologia de comunicação a ser inventada e, como tal, mantém em si a estranheza e a necessidade de aprendizado. Você aprende (ainda), é uma “segunda língua”. Ao mesmo tempo, as condições de intimidade - os computadores hoje são pequenos e estão em um cômodo da sua casa onde você tem privacidade - e a mimetização que a tecnologia faz dos processos mentais humanos tornam esse estranho uma extensão do seu próprio corpo. É você, uma parte de você, que é nova.

As condições de recepção são similares, em termos de mediação - é uma máquina - e de proximidade - ela fala com você e só com você. Diferentemente da televisão (a penúltima invenção), ninguém compartilha o seu momento no computador.

Ele fala só com você, e com outros milhões iguais a você. No mundo inteiro. Repetindo a cada instância a mesma imbricação de estranheza e intimidade. Você se reformula, se redescobre. Não tem como não o fazer.

Agora, de volta ao projeto japonês.

O que o torna especial é o fato de ser tudo isso que foi descrito acima e, além disso, japonês.

Merece um estudo aprofundado a posição única que o Japão apresenta no seu constructo cultural histórico e em como esse constructo se distingüe hoje, quando todas as culturas se vêem face ao mesmo processo de aquisição de elementos exógenos e reforço-invenção do que é considerado nativo.

O Japão formou sua linguagem escrita e, portanto, o esteio de sua cultura, com os signos e as tradições literárias de um outro povo, o chinês. Todas as outras línguas/culturas chegaram lá bem mais tarde, no período Meiji, meados do século XIX.

Uma vez chegadas, se tornaram o alvo de interesse da elite intelectual, que importou não só termos em inglês modificados, como - o que é de regra - sistemas de elaboração de pensamento por causa da necessidade de adaptar, nas traduções, a estrutura gramatical e sintática da língua estrangeira, e tecnologias - esse outro tipo de tradução de pensamento. Foi uma transferência semiótica. Ninguém vive isso impunemente. Muito menos quem já tinha, na sua história, uma formação híbrida, um discurso não-unificado, instável. No início do período Meiji, a escrita japonesa continha signos duplos, colocados juntos formando uma só “palavra”, um de origem japonesa muito antiga e o outro de origem chinesa. No início do século XX começam a surgir formas coloquiais que reproduzem o som de um japonês falando palavras inglesas. No início do século XXI, o inglês de um projeto japonês de arte na internet é perfeito. Mas a bonequinha que o fala é indiscutivelmente japonesa, com o “pathos” dos mangás, o trejeito de passividade meio perversa e erotizada de quem sabe como ninguém acolher as investidas alheias e sobreviver mesmo assim.

O que vale também para o texto do projeto de Kogo: um libelo contra o consumo. Um libelo contra o consumo, falado em inglês, por uma personagem digital, desenhada nas formas consagradas do consumo: curvas suaves, cores alegres, “femininas”, música agradável, movimentos idens.

É o que a internet faz: parece que come identidades culturais mas também as fortalece. E, o outro lado, incômodo: parece que ataca o consumismo mas também o fortalece.

 

 

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.

 

editoria: contemporânea, edicao_0003, em 20/9/2006

 

 

 

 

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