Cybermohalla
O projeto Cybermohalla fala da cultura popular de duas favelas de Nova Delhi – a Lok Nayak Jai Prakash e a Ambedkar Nagar – e é administrado pela ONG Ankur e um centro de estudos sociais, o Sarai. Os jovens das comunidades são estimulados a fazer diários como meio de refletir sobre a realidade deles e de seu entorno. Usam papel, vídeo, fotos ou tudo junto. Esses diários são tratados como um banco de dados sobre um presente que se renova sem parar e, embora já tenha estado mais ativo, em setembro de 2006 seu material continuava no ar.

O maior desses diários, o Before coming here, had you thought of a place like this? é uma instalação onde, por cima de fotos “grafitadas” no computador, aparecem vídeos, fotos dos participantes, filminhos de animação e cartuns sobre acontecimentos locais: um desatre de trem, um rato que tudo come ou uma noiva, por exemplo.
Nada que não tenha aqui, mas Nova Delhi continua paupérrima e violenta, nós também. E fica um certo desânimo com essas iniciativas.
Para quem quiser desanimar de vez, entre em: http://www.sarai.net/cybermohalla/cybermohalla.htm
Mas, duradouro ou não, tem uma coisa nesse projeto que não encontrei em nenhum dos muitos que tentam dar uma outra visão da arte e das pessoas no Vidigal, na Maré e em muitas outras.
É um projeto baseado em computador. O “livro”, “revista mural” e “instalação” – todos feitos com a estrutura de um diário de adolescente – existem da forma como existem porque usam a internet.
E aí vem o pensamento de que a metáfora da arqueologia para a descoberta de significados, velha como é (data do século XIX), pode precisar voltar à vida para exprimir a polissemia de um site onde você clica e clica outra vez, cada vez mais “fundo”, em busca de ruínas, coisas quebradas e casebres sem teto, que existem na superfície o tempo todo, só que ninguém vê.
Para ficar só no exemplo do século XIX, casebres na superfície era o que não faltava. Foi a época em que as cidades européias inventavam a favela, graças ao início da industrialização e à migração, muitas vezes forçada, dos camponeses pobres que perdiam o direito à terra. E enquanto isso, Théophile de Gautier e Victor Hugo, entre outros, falavam em suas obras de escavações, potes quebrados e de um discurso não escutado, o dos papiros. Mas havia um bom motivo para ir catar no fundo de um buraco o que ninguém queria ver em cima do solo. A arqueologia, no noticiário com descobertas que enchiam a imaginação popular, trazia dois atrativos que na verdade eram um só: primeiro, havia o fascínio com a tecnologia usada nas escavações e, segundo, essa tecnologia era usada para recuperar uma ligação com um passado perdido. Ou seja, um futuro que ressaltava um passado – nada mais apaziguador.
Hoje, dentro de nosso imaginário urbano, a favela também tem um valor de passado, de arcaico. Todos nós já moramos em uma casa de barro, todos nós já andamos descalços e tivemos de caçar diariamente algo para comer.
Fragmentos como esses, fotos, frases ou muros pichados (dizia-se inscritos) – escavados em um site ou em um sítio – são vestígios de uma totalidade que nos escapa e escapa em dois sentido, não a conhecemos e não a temos no presente. Um Cybermohalla, tanto quanto um Egito para o século XIX, é onde podemos pôr um desejo de não-fragmentação – que é o que vivemos no nosso presente urbano. Assim, se equivalem Egito, projetos em favelas, religiões orientais ou tipos de massagens alternativas. Mas se para quem os vende tanto faz, para quem os compra, há uma diferença. Projetos em favela, pelo menos, tentam alcançar um Outro.
Agora, é preciso não esquecer que nos sites, esses sítios arqueológicos contemporâneos, a tela, sem fundo e “limpa”, páira em um não-tempo e um não-espaço onde o presente, ou seja, a página de entrada com os dados objetivos, precisa ser “destruída” para que os hyperlinks ocorram. A coerência, a reconstrução desses fragmentos achados, então se dá, claro, na nossa cabeça, não que esteja lá, disponível. Nem pode. E essa qualidade de distância, ou “aura”, no sentido usado por Walter Benjamin, não tem nada de politicamente correto. Afinal, você vê os fragmentos como vindos de um longe tão longe que você sequer se dá ao trabalho de calcular, embora favelas e asfalto sejam parte de uma mesma situação urbana, a sua.
Com essa topologia temporal e espacial, o site mostra fragmentos de favelas indianas para nós, brasileiros, aparentemente como um exemplo raro de um Outro perfeito: o outro-tempo e o outro-lugar. É preciso escapar dessa armadilha de ver esse Outro como Outro para conseguir chegar até ele. Porque, por mais que se cave, é o Mesmo.
Elvira Vigna é escritora, com um mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro: "O que deu para fazer em matéria de história de amor", 2012, Companhia das Letras.







































