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Time de Kim-Ki-Duk

Time é mais uma obra instigante do cineasta coreano Kim-Ki-Duk. Dessa vez, a brincadeira com linguagem começa no título. Time é o loop criado com o início e o fim do filme, é a paranóia com idade e a obsessão por plásticas, é a idéia de que as pessoas enjoam uma das outras com o passar do tempo, a dificuldade de seguir adiante.

Time de Kim-Ki-Duk

Kim-Ki-Duk sempre trabalha com o conceito de ausência. O que não está tem por vezes mais importância do que o que podemos ver ou ouvir. Em Primavera, verão, outono, inverno… primavera já havia o conceito do cíclico, como o nome indica. O filme se passava em uma cabana no meio de um lago dentro de uma grande floresta, e a ausência de civilização criava a ausência das palavras. Casa vazia trouxe o silêncio para o meio da cidade, e ao fugir do cenário da natureza, a ausência do som se potencializou. São raras as falas, e não há adequação dos personagens ao meio. O grande objetivo do personagem principal é ser invisível, a expressão máxima da ausência para um ator. O arco, seu trabalho seguinte, extrapolou o silêncio, mas o devolveu para o cenário bucólico. Ficou então a pergunta, o que Kim-Ki-Duk faria em seu próximo filme? Time é um filme verborrágico na maior parte do tempo. As pessoas não só gostam de se comunicar, como têm na fala uma arma contra o mundo. É pela fala que identificamos o ciúme exagerado da protagonista e suas paranóias. Pelos seus escândalos (cômicos) somos informados do seu estado psicológico fragilizado. É dela que virá a primeira grande ausência do filme, a da imagem. Certa de que o namorado enjoou de seu rosto, ela resolve fazer uma plástica. A transformação externa assume-se como símbolo do vazio interior. Após a cirurgia – e sim, o diretor nos brinda com uma cena aterrorizante de cirurgias plásticas reais, os cortes são inacreditáveis e desagradáveis, mas só aparecem uma vez, o suficiente para gerar impacto e reflexão – a personagem decide desaparecer por seis meses, até poder tirar a atadura. Esvazia o apartamento e some sem avisar ao namorado. Na maior parte do filme acompanhamos o namorado e sua solidão, a descoberta da plástica e a neurose crescente por saber que qualquer mulher ao redor pode ser o seu amor perdido. A ausência flerta com o real e vira uma crítica à perda de identidade no hipermodernismo. Passado entre o centro da cidade e um bosque com esculturas eróticas deformadas, Time não é um filme para qualquer um (Kim-Ki-Duk nunca foi), é um filme para quem gosta de cinema e sente a necessidade urgente de entendê-lo. Nele, nada é mastigado e tudo parece fruto do acaso, mas não existe nada mais trabalhoso e estudado do que o processo de parecer simples na tela do cinema.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0003, em 27/9/2006

 

 

 

 

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