Cartola
Cartola, de LÃrio Ferreira e Hilton Lacerda, concorre ao Première Brasil do Festival do Rio, em apresentação hoje, dia 02 de outubro, à s 18:30, Cine Odeon. Seu lançamento comercial está previsto para janeiro. Um documentário que use 65% de suas imagens a partir de arquivos antigos tem um código já esperado: haverá segmentos em preto e branco para o passado, em cores para o presente. Mas o uso das cores de Cartola é outro.

Narrado em primeira pessoa pelo próprio Cartola que assiste assim ao seu funeral e revê sua vida em um flash-back cronológico, à la Brás Cubas, o filme de cara apresenta um tratamento não-convencional do que é “realidade” e do que é representação ficcional dessa realidade. A cor aparece aos quatro minutos do filme, em uma fantasia de um clóvis de carnaval em meio ao preto e branco do cenário. Segue, logo depois, na imagem de um trem que passa. Nas duas instâncias vem associada ao movimento, dentro de cenas paradas e em preto e branco. Continua a aparecer, depois, em pequenas porções, como nas bandeirinhas que balançam sobre uma rua de subúrbio, dando um toque ficcional ou fantasioso - e vivo - à representação de um Rio antigo. Então, temos a cor para a ficção, e o preto e branco para a representação de um real que, justamente por ser em preto e branco, é um real polÃtico, não naturalista.
Aos poucos o balanço entre cor e preto e branco muda. O substrato ideológico não. A cor se torna mais e mais presente, com inserções ocasionais do preto e branco, mas o valor de cada tratamento fica consistente até o final, ressaltado pela montagem de Mair Tavares. Exemplos: a junção do bonde em cor do cenário de Elizete Cardoso com o bonde em preto e branco das ruas da cidade. Ou na impagável seqüência dos militares de 64 andando para trás, como o paÃs. E se no inÃcio do filme havia detalhes coloridos no cenário em preto e branco, depois será o preto e branco que detalha, em uma sombra, a Lapa atual. Nas últimas cenas, os óculos, iguais aos usados por Cartola, são um toque delirante da presença dele, já morto, no barbante de um camelô do centro da cidade.

É um ponto de vista embasado, esse, que conta a história da cidade e um pouco a do paÃs, a partir da história de sua música. Afinal, o Brasil foi um dos poucos paÃses do mundo que conseguiram manter uma tradição musical própria, resistindo ao rolo compressor cultural norte-americano. Aqui, o rock e o jazz entraram para somar, não para substituir. É um legado e tanto.
Em tempo: as descrições de Elton Medeiros, vivas, “coloridas”, dos fatos vividos por ele e Cartola, mantêm o que foi dito acima: a cor nesse filme é elemento de uso conceitual.
Elvira Vigna é escritora e crÃtica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.



















