ARCO
ARCO é uma feira internacional de arte contemporânea que acontece anualmente, sempre em fevereiro, em Madri. Em 2007, eles vão homenagear a Coréia, em 2008 o Brasil. Qual será a diferença? Qual a especificidade de uma arte contemporânea feita aqui ou acolá?
A diretora do evento, Lourdes Fernández, e a diretora do Museu Reina Sofía, Ana Martinez de Aguillar, estiveram no Rio de Janeiro no início de outubro de 2006. Falaram coisas como vitalidade, conversão de tendências, permeabilidade, não-cópia.
De fato.

No programa da visita das duas diretoras ao Rio de Janeiro está o Centro de Arte Hélio Oiticica, com a segunda edição do Arquivo Geral. É uma espécie de mostra paralela à Bienal de São Paulo, com curadoria muito livre de Paulo Venâncio Filho.
Lá, ele separou espaço para dois sites specifics. O de Arjan é o mais impactante, ocupando todo o ambiente da escada. Em sangüínea e carvão, orgânico, sujo, anotado, irônico e frágil, os grafites do artista se contrapõem e se somam (nas cores semelhantes) ao jacarandá polido e clássico dos degraus e corrimão.

Aliás, a intimidade com a madeira poderia ser uma das especificidades que buscam as diretoras espanholas. O artista do hemisfério norte luta com a preservação da madeira de lá, sujeita a carunchos, cupins e degradação por humidade e variação de temperatura. Ele costuma usar o material com reverência, quase cerimônia. Os que por aqui trabalham encontram uma madeira que, por ser tropical, é mais resistente (quando de crescimento lento) e porque eles também são tropicais, a tornam íntima, usada, com um registro de afeto. Estão nesse caso a instalação de José Bechara, os totens de Afonso Tostes, os carretéis de Eduardo Frota e até mesmo os lápis de Malu Fatorelli. E, claro, Frans Krajcberg.
Outra: a tranqüilidade com que se misturam áreas. O axioma recente é, para nós, velho conhecido. Iole de Freitas mantém uma bi-dimensão que vem da pintura. Ângelo Venosa vai mais longe nesse caminho e pendura suas rendas de metal na parede, usando os vazados para uma profundidade também dada na lateral: as peças se esvaem. E tem Nelson Leirner a apontar, teimoso, o que existe desde D. Pedro II: a convivência do popular com o erudito. Eliane Duarte faz a mesma coisa e inclui a biografia no refazer de costuras anônimas.
Mais uma. Aqui, o mais rígido modernista, que sonhou durante o século XX com critérios objetivos, científicos, matemáticos, inclui o movimento, a festa, o prazer: Abraham Palatnik.
Lá não estavam, mas há o som ritmado a dar tratamento contemporâneo ao objeto industrial usado como material adquirido. Bandas como a Chelpa Ferro e músicos como Tato Taborda subvertem, ao tocá-los, a utilidade inerente desses objetos, industrializados ou encontrados, de segunda-mão, colhidos.No Arquivo Geral, o vídeo de Laura Erber fala de naturezas mortas. Um chão que recebe folhas, frutas, poças de água - e um isqueiro. A mão que aparece só recolhe o isqueiro. Um humor.
Vivos, todos.
Antonio Dias, Miguel Rio Branco, Luiz Áquila já estão confirmados na feira. O curador Paulo Sérgio Duarte diz que o critério de escolha dos artistas será o olho do curador, acostumado a 40 anos de praia. Diz que não há critérios objetivos nem pode haver. Mais uma contemporaneidade: a subjetividade de quem não trabalha com absolutos.
Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.



















