Relacionamento compacto na cama
En la cama é uma co-produção do Chile e da Alemanha falada em espanhol, na qual o espectador acompanha um casal que acabou de se conhecer. A abertura do filme mostra uma transa vertiginosa, feita de borrões e closes desconexos, que faz questão de avisar que seremos voyeurs trancafiados em um motel pelas próximas horas. Entretanto, o foco principal da narrativa não é o sexo, e sim a sucessão de conversas de alcova, às vezes tensas, às vezes hilárias.

O diretor Matias Bize criou uma mistura de drama e comédia que resume em 85 minutos o inÃcio ápice e fim de um relacionamento. Com essa ousadia na escolha do cenário, ganhou diversos prêmios no festival Viña del Mar, diversos prêmios Wiken e Sienna e foi o melhor roteiro do festival de Havana, entre outros de uma lista considerável.
Prender o espectador em um único cenário exigiu precisão na direção do filme e dos atores, agilidade de linguagem e jogos cênicos. Na cama utiliza truques de montagem (perfeitos) para acelerar o ritmo, mas na maior parte do tempo é o talento do diretor e dos atores que torna o filme um programa prazeroso.
Daniela (Blanca Lewin) e Bruno (Gonzalo Valenzuela) terminam sua primeira transa. Não sabem nada um do outro, nem mesmo seus nomes. Feitas as devidas apresentações, começam a filosofar sobre temas diversos. Aos poucos, vão se conhecendo, falam de sonhos, opinam sobre cinema, teorias fantásticas, fazem massagem, exploram seus corpos, fazem ioga, transam (logicamente) e nisso constroem um passado. Diante desse peso que é conhecer alguém de verdade, experimentam mudanças diretas no presente, nesse presente em cima da cama. De repente, tudo parece ter sentido, um futuro pode ser vislumbrado. Ficariam juntos? Nunca mais se falariam? Como seria a vida do outro lado das paredes do motel? As utopias pós-orgasmo esbarram nas fronteiras do mundo externo, criando as viradas de trama. O mundo perfeito tem limites. Surge então a crise conjugal, desentendimentos, a possibilidade de fazer as pazes e a despedida.
Como todo relacionamento real, o filme tem seu tempo ocioso, as famosas “barrigas” de trama, mas a qualidade dos diálogos, o carisma e beleza dos protagonistas e as pequenas surpresas espalhadas pelo roteiro valem cada prêmio recebido. Quem não se identificar com pelo menos uma das situações retratadas que mude de quarto de motel.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.



















