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Suspense em ritmo francês

O que um lemingue, a ilha de Lost, uma webcam voadora e Charlotte Rampling têm em comum? Essa mistura improvável é a fórmula de Lemming – Instinto Animal (Brasil e seus subtítulos), do diretor Domink Moll.


A premissa é simples. Um jovem casal muda de cidade porque o marido foi contratado por uma grande empresa. Fazendo sucesso com o projeto de uma webcam voadora, Alain (Laurent Lucas) logo fica amigo de seu chefe, Richard, e o convida para um jantar. Em casa, sua esposa Benedict (Charlotte Gainsbourg) prepara a salada, descobre que a pia entupiu e segue com os pratos quentes. Depois de um longo atraso, Richard Pollock (André Dussollier) e sua esposa Alice chegam na casa de Alain e Benedicte. O encontro não é dos mais agradáveis. Alice faz diversas acusações sobre Richard, fala de suas amantes, um verdadeiro desastre. Mais tarde, sem sono por causa da confusão, Alain resolve desentupir a pia e encontra um lemingue quase morto entalado no cano.

Lemming

É um começo promissor e bastante enigmático. A estranheza das coisas impede que o espectador se situe, reforçando o clima de suspense. É difícil saber de onde virá o susto, a descoberta, a virada que desnorteará. Os quatro personagens se mostram fontes de problemas potenciais e não desperdiçam gestos e olhares. Dominik Moll trabalha o tempo inteiro com a estrutura de suspense popularizada por Lost – subtrair a informação para avançar a história. Quanto mais para frente no filme, menos sabemos, menos faz sentido. O conceito do ponto de trama é modificado e o elemento narrativo se transforma em elemento visual. As informações, o que supostamente faz um filme andar, dão lugar a pequenos objetos. Os detalhes parecem importantes, ganham uma falsa relevância que serve apenas para alimentar a sede por novidades. O lemingue morto, um alicate quebrado, uma taça de vinho, a webcam voadora, um triturador de salada, um braço engessado, a chave de um portão, um lago azul. O ilusionismo pictórico tenta atrair o olhar do espectador, não deixá-lo desviar da tela ou desistir do filme durante o longo nada que acontece. Um desafio considerável.

A sensação de angústia torna-se ainda maior quando Alice tenta assediar Alain, e no dia seguinte vai encontrar Benedicte sozinha em casa para contar. A dúvida beira cada movimento sinuoso dos personagens. Estaríamos diante de um instinto selvagem francês? Quem vai atacar primeiro no quadrado amoroso?

Lemming

Charlotte Rampling construiu em Alice um verdadeiro vampiro social, lobotomizado e cruel, que transpira algo de desagradável e peçonhento. Seu jeito de andar está diferente, o corpo está mais curvado, o olhar é quase inexistente, como o de alguém que vive de sedativos. É por ela que o filme ganha importância e interesse, e as cenas em que aparece são as mais interessantes.

Infelizmente, a fórmula de Lost funciona melhor no mundo hollywoodiano, com correrias constantes, monstros de fumaça e heróis e heroínas que brilham de limpos depois de meses perdidos na mata. Misturar essa técnica de roteiro com a linguagem tradicional dos filmes franceses é correr o risco de entediar os espectadores.

Se você, entretanto, é daqueles que não resistem à lentidão de um filme francês, Lemming vai revirar seu estômago até o final, com o bônus de explicar o mito da migração dos lemingues e seu suicídio coletivo.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0003, em 3/10/2006

 

 

 

 

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