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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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06/10/2006

C.R.A.Z.Y. – Manual do politicamente correto

C.R.A.Z.Y. foi um dos sucessos do festival de cinema do Rio de Janeiro, o que garantiu sua entrada imediata no circuito. O filme conta a história de Zach e seus irmãos – Christian, Raymond, Anthonie e Yvan – que juntos formam a palavra crazy com as iniciais. Zach nasceu numa noite de Natal, caiu de cabeça na maternidade e é conhecido na família por curar doenças alheias. A história surgiu pois seu irmão mais novo, que nunca parava de chorar, sempre se aquietava em seu colo. Seria uma cura milagrosa das cólicas nas mãos daquele que nasceu no mesmo dia que Jesus. Mais adiante, descobrimos que Zach gosta de vestir as roupas e jóias da mãe e colocar o bebê para dormir, o que explicaria a quietude e o laço afetivo entre os dois. A convergência da temática glbt e o espírito religioso criam o conflito que move o filme: Zach é uma pessoa especial.

CRAZY

Numa família de cinco irmãos, a atenção do pai é disputada. Um é o bagunceiro, cheio de mulheres, que o pai adora. O outro é desportista porco, fortão, campeão do colégio, possui um lugar garantido no coração do progenitor. O seguinte é um verdadeiro nerd, se destaca em todas as provas, não tem como ser rejeitado. O caçula é um gordinho que pouco aparece, mas o caçula é sempre querido. Sobra para Zach ser o problemático, aquele que está na moda, usa os penteados diferentes, se entrega de corpo e alma ao som de David Bowie, gosta de sair de noite e possivelmente é gay. Para a mãe resta o papel clichê complementar, a Temperança que equilibra os egos e brigas, mantém a família unida, ama todos os filhos na mesma proporção e tem uma ligação diferente com Zachary.

O diretor Jean-Marc Vallée caprichou no visual e teve o cuidado de não cair no preciosismo, característica importante em um filme que gira em torno dos anos 60-80. Um bom pedaço do orçamento foi consumido na aquisição dos direitos autorais da trilha sonora, que passa por Bowie, Rolling Stones e Patsy Cline (cantando Crazy!). As músicas funcionam não só como fator de ambientação, mas também como marcadores de passagem de tempo, ao lado dos penteados de Zachary Beaulieu.

Ao colocar a maior parte dos personagens para escanteio e concentrar-se em Zach, Vallée optou por uma narrativa linear, simples de acompanhar do início ao fim, mas às vezes óbvia demais. Além da direção de arte, o filme se apóia nas atuações de Pierre-Luc Brillant (Raymond, o irmão rebelde e drogado) e Marc-André Grondin (Zach). Ambos são excelentes atores, dinâmicos na evolução dos personagens. Grondin muda por inteiro com seus cortes de cabelo, dando a nítida sensação de que a vida está em movimento e que realmente acompanhamos duas décadas em duas horas.

CRAZY

O problema da narrativa, que persiste até o último instante com uma viagem de autodescoberta para Jerusalém, é a mistura de sexualidade e religião, a repúdia ao ser especial cristão e ao ser especial gay. Como alguém que é gay pode ter sido escolhido para nascer no mesmo dia que Jesus e curar pessoas? Por que deveria considerar esses dois fatores especiais se eles o afastam da pessoa que mais ama, o pai?

Cabe ao espectador decidir se a atuação de Pierre-Luc e Marc-André pode compensar os exageros da entediante ladainha.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

C.R.A.Z.Y. – Manual do politicamente correto



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