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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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06/10/2006

Malvados

Há uma discussão idiota que rola há muito tempo, se o melhor instrumento de representação seria a imagem ou a palavra. Platão, por exemplo, odiava os poetas e achava que as imagens eram tudo de bom, pois não mentiam ao mostrar a natureza. O que não era verdade nem na época dele. Depois foi Leonardo da Vinci que, concordando com ele, disse verborragicamente em seus Tratados, que a palavra não estava com nada. No Iluminismo o alemão Gotthold Ephraim Lessing chegou perto do que a lingüística nos ensina na contemporaneidade. Ele disse que a palavra era perfeita, por ser imperfeita. Que por ser um signo distante do seu referente, ela permitia a aposição do pensamento do receptor na produção do significado. Não disse assim, com esses termos – ainda não na moda, mas disse. E poderia ter dito a mesma coisa de qualquer linguagem. O significado está sempre nem em uma ponta nem na outra mas no caminho, na relação, sempre feita e refeita, dinâmica, dos nós dessa rede.

E tem a história em quadrinhos. E, antes, tem as igrejas medievais, enormes suportes para a história em quadrinhos mais em voga da época, a Paixão de Cristo, que, em falta de painéis publicitários ainda inexistentes, deveria divulgar à população analfabeta a Palavra de Deus.

Malvados

O que nos faz perder um minuto tentando uma reflexão sobre similaridades entre populações sujeitas a massacrantes campanhas de formação de pensamento através do uso publicitário da imagem acoplada a algo inatingível, uma mulher boazuda ou signos incompreensíveis.

Mas voltando. E voltando com André Dahmer. Os quadrinhos Os Malvados, que ele publica no Jornal do Brasil e que expõe, em outubro de 2006, na Galeria La Cucaracha, em Ipanema, à primeira vista dá mais importância ao texto do que à imagem. Alinha-se, assim, na vertente intelectual dos quadrinhos da década de 80 quando o traço sujo de Crumb mostrava que beleza não era fundamental. Aqui, suas flores mal esboçadas apóiam frases de uma certa obviedade. E eis o ponto. Ao juntar desenhos falhos com frases que ecoam o já conhecido, Dahmer nos apresenta o espaço em branco. O que ele representa, concretamente, é o espaço livre a ser ocupado pelo receptor. Faz um convite explícito ao que antes estava implícito.

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E lá vem Derrida. Ele disse que a leitura era tornar o invisível visível, sendo que o invisível para ele era algo que ao mesmo tempo limitava e ampliava a visibilidade. No velho sentido de Lessing.

Dahmer é um filho de sua época, em que classificações – seja lá do que for – se fundem perante uma colossal mudança de paradigma: não mais a linha reta da lógica masculina e moderna, a da sucessão temporal do que vem antes, no meio e depois, do que é causa e conseqüência em uma construção lógica, para entrar, aos poucos mas avassaladoramente, em um pensamento abrangente, mais feminino, analógico mais do que lógico (daí a prevalência da imagem), inclusivo, pouco claro e muito participativo. Ninguém faz mais nada sozinho e todo mundo faz um pouco de tudo. Mal, segundo os critérios do século passado. Mas melhor, se você pensa em finalidades. A eficácia e a excelência estreita era boa para os fins competitivos e corporativos do século XX. O século XXI é uma outra história em quadrinhos.

A seqüência temporal, aliás, não é essencial nos quadrinhos de Dahmer. Vamos voltar então às características de tempo e espaço em relação às duas linguagens, a da palavra e a da imagem e como essas características são encontradas em Dahmer. A linguagem escrita em princípio privilegia o tempo, já que sua representação segue mais o padrão da lógica linear. A imagem privilegia o espaço, e se apresenta “ao mesmo tempo”. Mas Dahmer, já vimos, 1) quebra a imposição seqüencial nos quadrinhos; 2) faz um uso redundante da lógica, que fica assim, circular; 3) sua imagem imperfeita vem com brancos. E, finalmente, o número 4): há uma diferença entre a oralidade e a palavra escrita, a primeira também vindo “ao mesmo tempo”, já que o que é ouvido, ao contrário do que é lido, se registra como um todo onde detalhes e temporalidades se perdem para criar o vestígio do vivido – igual no olho e na orelha. Dahmer, ao repetir estruturas de quase-aforismos e usar a redundância como arma, está no campo da linguagem oral.

Adeus diferenças qualitativas entre imagem e texto. É esse o seu quadrinho, uma unidade. Falha.

 


Elvira Vigna é escritora, com um mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro: "O que deu para fazer em matéria de história de amor", 2012, Companhia das Letras.

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