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Arthur Omar. Zooprismas.

Arthur Omar. Zooprismas. Centro Cultural Telemar. Rua Dois de Dezembro 63, Flamengo, de terça a domingo, das 11 às 20 h. Até 29 de outubro.

Madona do Rio
Madona do Rio

São palavras como glória, anjo, pureza, vertigem, desmaterialização. E mais citações filosóficas, a Marselhesa e sua invocação dos cidadãos às armas. E também uma música orquestrada, grandiloqüente, por trás de rostos humanos que se desfazem.

Podia ser um pensamento sobre a luz e sua velocidade, e sobre outras coisas velozes, mas fica um cheiro de religião, de monumentalidade, de estímulos sensoriais encantatórios, quase hipnóticos, e isso esmaga a possibilidade de pensamento.

É Arthur Omar nos quatro andares do Centro Cultural Telemar.

E é a questão da religião ser ou não uma resposta viável ao niilismo ocidental. Se a menina afegã - ainda sem idade para a burka - de uma de suas instalações pode ou não ser comparada à menina dos brincos de pérola, pintada por Vermeer - o mestre da escola que escolheu o cotidiano, a materialidade extremamente otimista da vida imanente dos burgueses de seu tempo, como tema.

O mesmo incômodo prevalece em Madona do Rio, em que uma face de mulher, no registro simbólico conservador de mulher-sofredora (olhos baixos, cabeça inclinada), recebe, sofre, raios de luz frenéticos sobre a pele.

No vídeo Ballet 2, congelamentos periódicos da imagem dos bailarinos (do Mannheim Opera Ballet) aponta para a idéia de que a ética/estética está ligada à premissa de uma perspectiva extra-temporal: os movimentos têm em si a possibilidade do eterno, do imutável.

Pele Mecânica
Pele Mecânica

Na instalação Pele Mecânica, um desdobramento em cores digitais da obra em preto e braco Antropologia da Face Gloriosa, as dimensões sobre-humanas das faces que se dissolvem supõem uma metafísica que aplaca a experiência de alteridade que poderia acontecer com a seqüência de tipos variados.

Em Anjo, um pária domina a cidade com o olhar. Aqui há um registro piedoso, que implica em uma transcendência na medida que a figura apresenta, mais uma vez, uma temporalidade distinta, a interromper o ritmo luminoso do fundo urbano da parte inferior da imagem.

Anjo
Anjo

Nas fotos de Dionísica, o retrato é da “monstruosidade da carne”, seja lá o que se possa entender disso.

E Mola Cósmica, o painel que ocupa a fachada do prédio, faz lembrar a frase de Kierkegaard, de que repetição é a única forma de eternidade disponível aos humanos.

Em que pese o nome de Zooprismas da exposição, estamos diante de uma apresentação mais de prismas de luz que espelham a própria luz do que de pertencimento e espelhamento de uma história e de uma escolha, de uma experiência do possível.

 

 

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.

 

editoria: contemporânea, edicao_0003, em 7/10/2006

 

 

 

 

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