Milarepa
Milarepa é falado em tibetano, o diretor e roteirista é do Butão, seu produtor é australiano, a co-produtora é brasileira e a maior parte dos atores são monges da cidade onde o filme foi produzido. Não só é uma preciosidade cinematográfica, como também prova que a globalização tem facetas positivas.
Milarepa morreu há mais de 900 anos, mas ainda é um dos nomes mais cultuados do Tibet. Filho de um pai rico, ele viu sua fortuna ser roubada pelos tios e passou a viver com a mãe na miséria. Cansada de sofrer, ela o mandou estudar magia negra com os feiticeiros nas montanhas para que voltasse poderoso e matasse os tios e os vizinhos que lhes viraram as costas. Sem saber como buscar justiça, Milarepa (quando menino chamado Thöpaga) obedeceu à mãe e partiu em busca de mentores. No retorno, jogou toda a sua ira sobre a cidade e descobriu que vingança e justiça são coisas diferentes. Arrependido, foi acolhido por um monge e decidiu seguir os ensinamentos de Buda, o começo de uma nova jornada espiritual.
Não se deixe enganar pela estranheza. Mesmo sendo uma produção independente, o filme exibe capricho de uma ponta até a outra. O roteiro é enxuto, a fotografia é fantástica (as montanhas do Spiti servem de cenário) e o diretor estreante (o lama Neten Chokling) impregna as imagens de sentimentos com sua manipulação de linguagem. E como filme de magia negra que fica só na teoria não tem graça, os efeitos especiais são presença garantida na fase pós-aprendizado de Thöpaga.
Infelizmente, Milarepa não tem final. A viagem do jovem atrás do mestre budista deve ser lançada apenas em 2009.
Os destaques de atuação ficam por conta do talentoso Orgyen Tobgyal, no papel de Trogyal, o feiticeiro, e de Kelsang Chukie Tethtong, como Kargyen, a mãe obcecada por vingança. Pelo visto, a cantora também leva jeito para o cinema.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.



















