Leopoldina
Se você estiver perto da Estação da Leopoldina entre as 17 e 19 h., entre. Até essa hora você não paga. Depois, até domingo, começa a venda de ingressos para a programação da RioCena Contemporânea.

Mesmo que você não fique para a festa, vale o local. É uma oportunidade para se sentir, em tamanho grande, o que se sente diante de qualquer obra de arte: uma espécie de manutenção do presente em outros tempos, futuros e passados. Ou vice-versa.
Não que a Estação Ferroviária Terminal Barão de Mauá, o nome certo do enorme edifÃcio da Francisco Bicalho, seja uma obra de arte em si. Neoclássico, contemporâneo de outras construções da reforma urbana da cidade do inÃcio do século XX, era para apresentar seu aspecto funcional, na linha de ferro e vidro comum a gares européias do perÃodo. O que dá a ela essa dimensão de arte contemporânea é a inserção de mais vidro e mais ferro, e de luzes que se aproveitam de ambos. O resultado são trens velhos, degradados, que se mostram lindÃssimos na diferença exata entre o que é recuperar o passado e atualizá-lo. Não tem nada recuperado, pelo contrário, mas tudo é atual.

Há sempre a discussão sobre como pôr arte contemporânea em espaços históricos e o visitante poderá observar um bom resultado. Muito desse sucesso, é verdade, se deve ao tema trem, viagem. Pois não se açambarca de vez todo o espaço da estação, há o terreno que se estende, na parte posterior, até quase o horizonte (com direito a pôr-do-sol na hora sugerida à visita). Forma-se portanto um espaço imaginário, um vazio onde se dá o diálogo transparências contemporâneas versus os vidros neoclássicos. Uma outra circunstância favore as passagens suaves: não é um mundo em preto-e-branco, esse. Os ferros, que fazem curvas, enferrujam em tonalidades ricas. Luz e sombra convivem.

A Estação da Leopoldina tem esse nome porque seus trens faziam a ligação com a cidade mineira de Leopoldina, de onde vinha o café - a riqueza da época - para o porto do Rio. Sua primeira linha, inaugurada por D. Pedro II em 1873, parava no meio do caminho em um lugar chamado Pântano. De lá para cá, as paradas de meio de caminho mudaram de nome mas continuam existindo. A contemporaneidade e o neoclassicismo se unem com suavidade.
O edifÃcio não tem sua ala esquerda. Visto de frente, ele não se assenta na simetria que caracteriza as construções de sua época. Há um plano de reforma do Estado para o local. Falam em construir um anexo. Não na parte que não existe, mas atrás, na amplidão do olhar. Sempre haverá perdas.
Elvira Vigna é escritora e crÃtica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.



















