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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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16/10/2006

A última Noite

Robert Altman disse que está há anos fazendo o mesmo filme e que fica feliz que as pessoas ainda se interessem. A última noite comprova a teoria. O estilo de Altman é inconfundível, coisa rara em Hollywood, mesmo no cinema independente. Ele continua flertando com gêneros diversos, faz dos personagens máquinas verborrágicas e desmembra a atenção do espectador em inúmeros assuntos paralelos ao desconstruir sem piedade a imagem do protagonista.

O filme mostra a última transmissão de um famoso programa de rádio dos Estados Unidos, dividindo-se entre o palco e os bastidores. O drama se constrói nessa despedida não anunciada ao público (que está lá fazendo figuração e não interfere na história) e questiona o apego ao passado frente às mudanças da vida.

A Prairie Home Companion (título original) traz elementos tradicionais dos trabalhos do diretor.

Praire

Como em Prêt-à-Porter, há a influência de um elemento externo no labirinto que é a rádio. Se nos bastidores da moda a função recaía sobre uma jornalista, aqui o papel fica por conta de Axeman (Tommy Lee Jones), o homem que quer comprar a rádio, e de um anjo (Virginia Madsen) que morreu por se distrair ouvindo uma piada do show. A indagação sobre os limites entre ficção e realidade, que marcou The Company, retorna sem que o artifício seja explicitado ao público, estando simplesmente a serviço do filme. Retorna também a claustrofobia de Gosford Park, presente nos ângulos fechados e cenários sufocantes.

Os cantores, apresentadores e funcionários enclausurados na rádio encontram na última noite do show o momento certo para a catarse de seus sentimentos e histórias.

O filme, em sua essência, é um musical. O diretor mostra o programa de rádio do início ao fim, com todos os números musicais, piadas e comerciais. Da chegada aos camarins até a saída para o bar da esquina, ouvimos Meryl Streep, Lily Tomlin, Lindsay Lohan, John Reilly e Wood Harrelson soltando a voz ao lado de Jearylin Steele e uma banda completa com violão, baixo, piano, bateria e efeitos sonoros variados. A comédia, que dá o tom geral, surge em situações inusitadas que modificam a rotina já conturbada e encontra sinergia na composição dos personagens. Dando um toque de charme, Altman aproveita o (falso) suspense para evocar o noir, criando um segurança canastrão vivido por Kevin Kline, um tanto perdido no filme, mas que serve de ponte entre bastidor, palco e o anjo sem nome.

A última noite conta ainda com Maya Rudolph, do programa Saturday Night Live, grávida, no papel de uma assistente mal-humorada, idéia no mínimo curiosa.

O filme arrecadou mundialmente até agora US$22 milhões. Pode não ser nenhum Gosford Park (87 milhões), mas leva boa vantagem em cima dos clássicos Short Cuts e Prêt-à-Porter.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

A última Noite



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