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Renato Russo, fotografias

A primeira linha da canção Por enquanto de Renato Russo, Chegaram as estações, nada mudou, é sintomática de sua figura de Contador de Histórias, no uso mítico, e comum a todos os povos, do ermitão que dá as costas aos prazeres e convívio da cultura onde ele se insere para falar dessa própria cultura e das mudanças que os tempos provocarão nela. Mais do que isso, o que encontramos nele e em suas canções é a atualização dessa personagem, na submissão da sua palavra de teor coletivo a temas mundanos ou pessoais, em um processo laicizante e secular, peculiar da espiritualidade das sociedades capitalistas modernas. O que é o texto principal, desse modo, e que poderia ser chamado de “uma verdade maior”, passa a ser subtexto.

Agora, um grupo de 20 fotógrafos dá um passo além nessa modernização das comunicações ocidentais de conteúdo mítico. Em uma tradução intersemiótica, o grupo apresenta imagens que dizem o que a letra da canção já não diz, mas diz. Então o texto que virou subtexto agora se afasta mais um pouco e vira imagem, na metaforização que parece ser o único meio suportável de se comunicar a seguinte verdade metafísica: a gente um dia chegou a acreditar que tudo era para sempre sem saber que o para sempre sempre acaba.

(E que a Cássia Eller era mortal.)

Mas nada vai mudar o que ficou, segue a canção, e essa linha, que se segue à citada anteriormente, contrapõe então a mortalidade humana à perenidade do Amor (ou à energia dos jovens ou à resistência política ou à arte), única coisa capaz de fazer com que as estações do ano mudem e não mudem ao mesmo tempo.

A exposição, de curadoria de Guy Veloso, está em Belém, no Instituto de Artes do Pará, durante o mês de outubro e depois viaja para outras cidades brasileiras. Nela, exemplos dessa recuperação que, por ser imagem, é ao mesmo tempo mais direta e mais afastada da História que o Contador se impôs cantar.

Fatinha Silva apresenta duas cabeças de plástico de encaixe, de bonecos cujos corpos estão ausentes, contrapondo assim mente e corpo.

fotografia de Fatinha Silva
fotografia de Fatinha Silva
Flávya Mutran mostra uma figura atemporal de mulher, ao lado de uma caixa entreaberta que nos remete ao mito grego da caixa de Pandora, antecessora da maçã do Paraíso cristão.

Michel Pinho traz um homem andando rente a um muro onde há figuras que agem como sua sombra aumentada. Essas figuras, não tipificadas, carregam uma flor que se contrapõe às roupas esfarrapadas do homem diminuto à sua frente. A flor está no final de um caule-fio que vem de uma origem não estabelecida na imagem. Do além-figura.

fotografia de Michel Pinho
fotografia de Michel Pinho

Moisés Araújo fotografou as redes suspensas dos viajantes dos barcos do porto de Belém. As redes, humanizadas pelo seu colorido vivo, suas curvas e por detalhes dos corpos de seus ocupantes - aqui um pé, ali uma perna , se contrapõem ao fundo da imagem, de linhas retas, em azul esmaecido, um horizonte “eterno”.

Liane Dahás apresenta a noção renascentista do tempo-espaço, com uma perspectiva que sai do olho do observador em direção ao horizonte longínquo. É um caminho, margeado de árvores nuas, em um outono/inverno universal embora só existente no hemisfério norte.

Francisco Del Tetto compôs a estrutura básica da arquitetura religiosa, com a massa da construção na parte de baixo da foto ocupada por signos da modernidade e a parte de cima, em triângulo, como um “teto” de igreja formado por volumes da conhecida coleção Tesouros da Juventude.

Além deles, Alberto Bitar, Alexandra Farah, Naylana Thielly, Sinval Garcia, Orlando Maneschy, Daniel Cruz, Kamila Frazão Lopes, Lu Magno, Irene Almeida, Miguel Chikaoka, Maria Christina, Ronald Ruffeil e Mariano Klautau Filho.

Na mitologia cristã, o Contador de Histórias foi São João Batista, que começava sua fala sempre com uma exortação para que os ouvintes tivessem a mente aberta, abandonassem antigas certezas para que uma nova verdade pudesse se impor. O que ele dizia, em suma, era que era preciso se libertar.

A primeira banda de Renato Russo se chamava Aborto Elétrico e tinha uma posição bem política, trazendo o contexto de Brasília da época (fim da ditadura). O Legião Urbana, posterior, já ingressava em uma polissemia mais poética do que política.

As fotos de hoje, 2006,  repetem de forma irônica os últimos versos da canção-tema da exposição: Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está / Nem desistir, nem tentar, agora tanto faz. / Estamos indo de volta pra casa.

De fato, o pensamento analógico, por imagens, provavelmente surgiu antes do lógico, o das palavras.

 

 

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.

 

editoria: edicao_0003, fotografia, em 16/10/2006

 

 

 

 

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