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Dália Negra

Brian de Palma possui no currículo os sucessos financeiros de Missão Impossível (US$180 milhões) e os Intocáveis (US$76 milhões), fiascos como Femme Fatale (US$6 milhões), e é o responsável pelos clássicos Scarface e Carrie – a estranha.

Dália Negra, a princípio, não deve cair em nenhuma das categorias. O filme sofre da síndrome das adaptações literárias, uma espécie de melhores momentos do livro que nem sempre servem para o andamento da trama. As coisas se complicam um pouco mais quando estamos falando de um noir. Há quem diga que o noir não chega a ser um gênero, e sim um conjunto de características que pode povoar qualquer película. Encontramos esses elementos diegéticos em filmes distintos como Se7en – os sete pecados capitais, Blade Runner, Sin City ou Coração Satânico. Seguindo esse raciocínio, Dália Negra (o filme, não o livro) é um romance que abusa da roupagem do noir. O cuidado estético fica evidente em cada figurino caríssimo, praticamente um desfile de Dolce e Gabbana nos ternos, jaquetas e calças de Josh Hartnett. Evidente demais.

Dália Negra
Brian de Palma é um diretor de mão cheia, disso não há dúvidas. Se taparmos os olhos nos closes exagerados (e engraçados, quase um tropeço do câmera), sairemos do cinema confirmando a teoria. Ele consegue arrancar dos atores a essência dos personagens, fazendo as atuações brilharem mais do que os nomes. Você pode imaginar Josh Hartnett em um papel sério que exige dramaticidade? Consegue ver Hilary Swank como uma mulher sedutora envolvida com prostituas? Méritos do diretor. Scarlett Johansson é a exceção da vez. A atriz faz o papel de sempre de mulher fatal vítima das circunstâncias, a persona explorada por Woody Allen em Match Point. Como sua personagem é praticamente uma dona de casa num universo de policiais estilosos e viúvas negras, talvez a culpa seja mais do roteiro do que da atriz.

Dália Negra tem um roteiro confuso demais. Perde tempo armando uma luta de boxe que pouco influencia nos acontecimentos, não consegue compor os laços de confiança entre os policiais Fire e Ice e enxerta personagens repentinamente, deixando óbvio o seus papéis dentro do filme. As horas de fumaça e sombras acabam eclipsando os breves minutos de conteúdo, tornando difícil encontrar o foco da história. Isso faz as tramas paralelas ganharem a mesma força que a principal, e o assassinato da Black Dahlia passa a ser mais um no meio da confusão.

O noir é assim, um equilíbrio delicado entre o suspense, o policial e o romantismo. E no fim das contas, aconteça o que acontecer, sempre terá os seus fãs. Se o visual é o que importa, Brian de Palma conseguiu um bom filme. Se é verdade que o lado psicológico é a verdadeira força desse gênero, dúvidas pairam no ar.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0003, em 24/10/2006

 

 

 

 

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