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Pedro Juan Gutiérrez

Comece-se com uma observação simples.

Pedro Juan Gutiérrez, ao escrever seu último livro, O ninho da serpente, memórias do filho do sorveteiro (2005), reafirma, na contemporaneidade, o privilégio do erótico e sua ligação com o pensamento político. A prevalência do erótico, numa obra como a de Gutiérrez, é fundamental para que se possa compreender o significado que assumiu o discurso do fato político no nosso tempo. Num misto de desencanto e afirmação da precariedade do mundo, Gutiérrez, por habitar um espaço social e político demarcado pelo totalitarismo e pelo isolacionismo econômico, pôde verificar duplamente a face do desencanto. Em sua recusa, expressa em todas as suas obras, por abandonar Cuba; em sua recusa por aceitar essa Cuba invadida pela prostituição e pela corrupção, determina a dupla condenação. Ao mesmo tempo elege o estrangeiro como um não lugar e o lugar como estrangeiro, o sujeito nem aqui nem ali é mais sujeito da história, senão que boneco de um teatro de líderes sem cara, como Octávio Paz (Paz, 1987, p. 62) lê o desencanto da história:

Enquanto leio no México, que horas
Se faz em Moscou? É tarde, sempre é tarde,
Sempre na história é noite e horas mortas .

Solyenitzin escreve, o papel arde,
Sua escrita avança; cruel, a aurora
nos planaltos cheios de ossos.

Fui covarde
Não enxerguei de frente o mal e hoje o século
Corrobora o filósofo:O mal? Um par de
Olhos sem cara, um repleto vazio.
O mal: um alguém nada, um algo nada.

Stalin teve cara? A suspeita
Comeu-lhe cara e alma e arbítrio.

Povoou de medo sua noite desalmada,
Sua insônia deixou a Rússia despovoada.

Sujeito da história, o medo emblemático dos líderes compõe tanto em sua parca visibilidade quanto em sua total invisibilidade um lugar descentrado, cujo discurso se apropria do corpo e, dele fazendo uso, elege-o – seja nos discurso de reconstrução do corpo combalido pela idade, seja no corpo promíscuo da baixa prostituição, do onanismo – como o único espaço possível de um combate previamente perdido. O erotismo de Pedro Juan Gutiérrez é o erotismo do nojo, do gosto pelo nojo, ou ainda, da consciência do sujeito como ser viscoso e repelente. O submundo se redesenha pela impossibilidade e pelo desejo desglamourizado.

Não sei quantas horas depois resolveu parar. Levantou da cama e acendeu a luz. Antes não tivesse acendido.

__ Ai, menino, você me ralou a boceta. Gosta tanto assim?

__ Gosto.

Por fim a vi nua. A barriga flácida, as pernas e as coxas cobertas de varizes, os peitos grandes e caídos, a pele suja e encardida, os dentes amarelos e podres. Olhou para mim com as mãos na cintura e riu:

__ Gosta mesmo de mim? Olhe bem.

E deu um giro, alegre, como uma modelo, como uma ninfa púbere com todas as medidas do cânone grego. Olhei bem para ela e me deu raiva de mim mesmo. Ou asco. Não sei.
(Gutiérrez, 2005 p. 15 -16)

Desglamourização que é também política:

A rotina era dura. Por sorte, um grupinho dos mais espertos descobriu uma bezerra não longe dali. Preta, linda, com uns olhos sonhadores. Era de um caipira que a deixava a noite toda amarrada num bosquezinho junto com a vaca. Ficamos viciados. Quase toda noite íamos, a turma inteira, trepar com a bezerra. A vaca não, porque estava sempre com o cu cagado e, além disso, a vagina era enorme. Mas enorme. A bezerrinha, ao contrário, era um docinho. Pequenininha, apertada, quente e vermelha. Belíssima. Às vezes, éramos até dez. Um atrás do outro. Calculamos que ela recolhia por noite um litro, um litro e meio de sêmen em sua vaginazinha. A juventude de aço tinha de se distrair um pouquinho. Para não ficarmos loucos.

O político liberal havia trazido com ele de Havana uma pequena biblioteca e a colocou à nossa disposição: desde as obras escolhidas de Marx, Engels e Lênin até alguns volumes de Mao e Kim Il Sung. O melhorzinho eram os romances do realismo socialista: Um homem de verdade, A  fortaleza de Brest, Os homens de Panfilov, A estrada de Volokoamsk, os livros de Sholojov sobre o rio Don. Enfim, não havia mais nada. E nem toda noite dava para ir para cima da bezerra, porque senão a gente acabava matando a coitada. Então li aquilo tudo. Sem comentários.

 

 

 


Oswaldo Martins é escritor e poeta, formado em letras, mestre em Literatura Brasileira pela UERJ e, atualmente, frequenta o doutorado em Literatura Comparada, na UFF.

 

editoria: edicao_0004, literatura, em 1/11/2006

 

 

 

 

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