Nunca fomos modernos
Muito se discute a pouca popularidade da música clássica, sobretudo entre jovens. Diante do que parece ser uma bela sacudidela cultural em nossa sociedade de consumo, onde o cinema teve papel central e marcante, sem dúvida, com belas produções nacionais há quase uma década e festivais cada vez mais consolidados, assistimos ao efervescer de livrarias (ainda que muitas vezes se contemple mais o espaço mezanino das lojas e o livro apenas como objeto cênico), cafés literários, uma inesperada renovação de espaços como a Lapa (RJ), uma cena musical - de verve tradicional e popular - como há muito não se via pela cidade em que na década de 80 o chorinho, o bandolim e o samba de raiz foram largados ao mar em nome sabe-se lá do quê.
No compasso dessa dinâmica, estão também as agendas de música clássica. Cada vez mais lotadas, com uma boa variedade de apresentações, senão para todos os gostos pelo menos para todos os bolsos. Muitas revelações, sobretudo no reduto dos instrumentos de corda cujos nÃveis de competitividade parecem ter superado, por ora, os padrões das acirradÃssimas disputas de último nÃvel ao piano de outrora. E não que sua majestade em preto e branco – o piano - tenha perdido a cor, ou sequer a coroa. Nelson Freire, que cada vez mais dispensa apresentações nos mais variados meios, é um incontestável sucesso internacional de público. O piano voltou à cena, e à s salas de cinema, em grande estilo, no brilhante e surpreendente documentário de João Moreira Salles, “Nelson Freire”. É daqueles artistas que, sem dúvida, inspiram gerações.
No entanto, mesmo com todo esse vento a favor, assistimos a uma triste realidade: as pessoas não se aproximam da música clássica. Alguns, com razão, argumentam que as pessoas têm medo de música erudita. Que se deixam intimidar pelo eruditismo do meio, pela pompa das salas de concerto. Outros preferem aludir à chamada crise da pós-modernidade, onde o regime da alta velocidade em que ocorrem as transformações culturais impede a vigência de uma identidade contemporânea menos fluÃdica, mais sólida. Sob essa ótica, não seria encorajador, a partir do que se propaga na atualidade, por exemplo, perder 45 minutos para ouvir uma sonata de Beethoven ou uma sinfonia de Brahms. Outros diriam que nunca fomos tão modernos ou ainda que nunca fomos modernos. A zarpar desse emaranhado conceitual e superficial, proponho quase uma provocação: os jovens adoram música clássica, mas não sabem. Claro, os jovens é uma generalização caduca e muitas vezes desagradável, mas analisem com algum cuidado a estrutura melódica, rÃtmica e harmônica das mais variadas bandas de heavy-metal, ignorando, por alguns instantes, sua estética ácida e seu visual pesado. Muitos chegam, em letrinhas miúdas, a estampar no rol dos special thanks dos encartes dos álbuns nomes como Mozart, Bach, e Beethoven. Bebem nessas fontes, mesmo. Também não é raro para o rato de sala de concerto, habituado ao isolamento que tal prática à s vezes o reserva, surpreender-se com um comentário entusiasmando de alguém que jamais havia ouvido Beethoven ou Chopin e que o acompanhara naquele dia. Quantas vezes me deparo com pessoas que, a despeito da boa educação que receberam em escolas e universidades prestigiadas, mal sabem o nome dos instrumentos mais óbvios.
Contam-se nos dedos as escolas ou universidades que oferecem mais que um grupinho de flautas doces ou um coral bem intencionado. Na Internet, o que se vê é um festival de raridades e de faixas fantásticas e imperdÃveis diluÃdas num oceano de arquivos fragmentados e de origem e rótulos duvidosos, invisÃveis aos menos habituados à s buscas.
A inserção da música erudita no embalo desse cenário cultural atual, favorável, não se faz apenas pela boa localização de algumas salas de concerto de grandes cidades, nem com a tentativa de apresentar esta arte como a mãe suprema das outras músicas, nem com atitudes da moda como uma sinfonia no “piscinão de Ramos” ou uma presença no Municipal para ver o Nelson Freire e sair na coluna social. Assim como a música é mais que uma melodia, sua inserção na dinâmica cultural vai além de salas lotadas aos gritos de “bravo!”. Nesse sentido, interagir, de algum modo, com a obra de arte torna-se condição fundamental para que, enfim, como em outras atividades, o espectador torne-se ator, intérprete do que vê e ouve. A arte se fazer no espectador. Se Nelson Freire, e outros artistas, inspiram gerações, que sejam inspirados também gerações de espectadores. Está claro o papel desafiador da Educação que se constrói aqui. Não quero popularizar Mozart, Beethoven ou Chopin mais do que suas obras já o fazem. Mas mostrar que eles são música de hoje e não de ontem, já é um bom começo.
Fillipe Trizotto



















