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Olhar Estrangeiro

Você lembra de Lambada – o filme? A floresta amazônica estava sendo destruída por uma multinacional americana. O homem mau debocha dos índios, enquanto derruba árvores. Do meio da tribo surge uma voz feminina “Stop!”, e o homem mau fala “você sabe inglês? estou impressionado”. A jovem é uma princesa indígena, branquela, maquiada, longos cabelos negros, com vestidinho de malha. Disposta a salvar seu povo e a Amazônia das garras do homem mau, ela se inscreve em um concurso de lambada e vai parar nos Estados Unidos. Antes de partir, aparece na floresta dançando a suposta lambada enquanto os índios cantam “capoeira, capoeira”.

Olhar Estrangeiro

Partindo do livro O olhar dos gringos de Tunico Amâncio, a diretora Lúcia Murat resolveu analisar o olhar estrangeiro sobre o Brasil e decifrar essa visão clichê cinematográfica. Entrevistando atores, roteiristas e diretores, Lúcia Murat pergunta como surgiram filmes tão ruins quanto Lambada e o que levou os profissionais a apelarem a idéias tão ruins.

O documentário é divertido na maior parte do tempo. Além de Lambada, passamos por Anaconda (serpentes gigantes na Amazônia), Orquídea Selvagem (Brasil do sexo ininterrupto) e Feitiço do Rio, entre outros. Não há como evitar as risadas ao ver cenas de The Producers, em que os bandidos fogem para o Rio e dançam rumba no hotel. Próxima parada Wonderland também soa hilário, com um brasileiro que canta bossa nova em espanhol e leva a namorada ao centro de São Paulo para oferecer flores a Iemanjá (praia!). Em outros momentos, um passeio por Copacabana mostra todas as mulheres de topless e crianças brincando com macacos e araras na areia. Em outro, uma simulação de casamento brasileiro põe uma mãe de santo de “padre”, enquanto os noivos rasgam suas roupas e correm pelados ao redor de uma fogueira.

As respostas capitalistas não chegam a surpreender, quem manda é o dinheiro, a indústria do cinema sabe disso. Se o maior público fala espanhol, o filme será falado em espanhol.

A atriz Hope Davis e os atores Jon Voight e Michael Caine dão um brilho especial, ela pela visão da sensualidade-topless-caipirinha que tem do Rio de Janeiro (fica abismada ao saber que topless é proibido por aqui), eles pelos comentários inteligentes e bem-humorados. Michael Caine brinca e diz que se os brasileiros fossem todos feios a sensualidade não seria um clichê, depois assume uma postura séria e comenta a desigualdade social.

Chama atenção o discurso desorientando de Tony Plata (Amazônia em Chamas) sobre sua participação no filme que fala de “Chicou Mendes no Brasiou”. O ator defende como pode os clichês, diz que é preferível um ator latino que fale inglês do que um brasileiro que não consiga se comunicar com a equipe.

A sensação ao final do filme é dúbia. É claro que os filmes analisados são patéticos nos erros, mas teriam mesmo que acertar? Como bem diz um dos diretores, filmes sobre um Brasil legítimo não deveriam partir do Brasil? Atire a primeira pedra quem não imagina a Austrália cheia de cangurus, a Inglaterra com neblina, a Espanha com touradas, o México dos bigodes e chapelões e o Brasil… do futebol e carnaval.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0004, em 4/11/2006

 

 

 

 

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