Ricardo Daunt - Poses
Poses de Ricardo Daunt, como todo bom livro, tem histórias internas e externas. Por dentro são 15 textos que se dividem em contos e novelas, do lado de fora são 30 anos desde o primeiro livro e 15 anos longe das livrarias. Esse longo perÃodo de gestação influenciou tanto a feitura do livro, quanto influencia a leitura. Saber que lá está um percurso de quinze anos de vida torna mais intrigante a conexão livro-leitor. “Existe a pose do homem solitário na poltrona, a pose do artesão exigente, a pose do objeto de museu”, diz Daunt. Em cima desse primeiro registro capturado – a situação sÃntese – o escritor compõe com precisão os recortes de vida dos personagens e explora locações, tempos e situações que nos levam a desbravar sentimentos próprios e alheios.
“E você ficou sobre os joelhos, e depois se sentou sobre os calcanhares, as cordas de suas coxas retesadas, uma das mãos tocando de leve minha perna, a outra, alheia, um pouco abaixo das axilas” – 5 monólogos tradicionais.
Poses não é uma obra estática nem no conteúdo nem na forma. O primeiro retrato jamais se repete no segundo, o que ecoa é a complexidade dos personagens, à s vezes próximos de nós, à s vezes deslocados para outra realidade, unidos ao nosso olhar por uma ponte crÃtica metafórica. Logo no conto que abre o livro, nos deparamos com o universo da estranheza, acompanhando um ourives que transpõe o perfeccionismo e vive o próprio ato, num paralelo ao filme The Prestige. A sua busca pelo corte perfeito encontra ecos no passado amoroso, e o rubi, no lugar do coração, pulsa e se mistura à s emoções. Essa interface entre criador e criatura é sintomática em Poses, um sinal de que a crÃtica é também autocrÃtica.
No conto Ix, o humor se une ao quebra-cabeça. É uma ficção cientÃfica de brincadeiras entre significante e significado, que gera a nave Laborex, os monitores Gossipex, a estação Descartes e uma importante decisão. No gabinete de Ralph, um dos pontos altos, um herdeiro revive a história da famÃlia Osborn por meio de fotos e legendas de um álbum. É um conto sensÃvel que recria uma época industrial de relações de poder elaboradas e sensÃveis à s leis sociais, com o rigor forçado da estrutura familiar valendo como moeda de respeito.
Outro destaque é La rosa blanca. Visual e poético, o conto leva o leitor para a Cuba pré-Fidel Castro e mostra sua influência sobre uma famÃlia. O limiar entre ficção e realidade é quase lÃrico. Enquanto o charme do paÃs funciona de pano de fundo, Daunt tece cuidadosamente a personagem Lenita na sua descoberta do mundo.
“Nas raras vezes em que o Ralph de carne e osso cruzou meu caminho, tive a nÃtida impressão de que seu olhar me acusava de me haver apropriado de algo que lhe pertencia com exclusividade. Mudamente eu também o acusava, porque ele interpôs em nossa virtual relação uma distância que jamais seria vencida”. – O Gabinete de Ralph.
Ricardo Daunt tem um currÃculo extenso. Com Poses, encerrou a tetralogia Ciclo Urbano, que conta ainda com Homem de prateleira (1979), Grito empalhado (1979) e Endereços Úteis (1984). É autor de Manuário de Vidal e Anacrusa, entre outros. Um breve resumo de sua biografia já daria uma novela curta, repleta de reviravoltas, encontros e desencontros com a vocação de escritor, contato com diferentes culturas e viagens pelo mundo, talvez um reflexo da proposta estrutural de Poses. Vislumbrando o sumário de passado e os projetos do futuro, uma coisa é certa, Ricardo Daunt está em atividade contÃnua, explorando as variantes mais atrevidas de seu número, assim como Fausto no conto Mágico.
“A sua rebeldia contra os crÃticos é mais um problema metafÃsico seu, do que uma crise de consciência deles (…) Ora, se a arte é resultado de um agregado de decisões técnicas conseqüentes, cabÃveis, complexas, tomadas por quem assina, ela é necessariamente um objeto cognoscÃvel”. – Blake versus Claude.
Ricardo Daunt, livro Poses, ed. Via Lettera.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.



















