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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 24, março & abril de 2010

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7/11/2006

Reflexos e projeções

Não é uma sistemização formalista mas a troca de um diacronismo por um sincronismo. Em vez de um antes, há um ao mesmo tempo, em vez de um passado, seria um presente (só que não é, como veremos depois.)

Pode ser apenas porque se trata de um instrumental ainda novo para a arte. E isso tornaria esse diacronismo mais aparente do que com outros materiais. Mas é também uma questão de como somos hoje, e a arte – essa ou outra – espelha isso.

A exposição de novembro de 2006 do Centro Cultural Telemar – que agora se chama Oi Futuro – traz oito famosos artistas em um mesmo tipo de instrumental artístico, o tecnológico. São reflexos ou projeções. Não a coisa em si, mas o reflexo ou sua projeção. Sendo que já seria bem difícil definir ‘a coisa em si’. Então, há um eco de Baudrillard ecoando naquelas escadas.

Ou de Bakhtin, ao analisar as vozes múltiplas dos romances de Dostoievsky. Falava ele de “uma pluralidade de consciências de igual valor”.


E de fato, os oito artistas – Antonio Dias, Daisy Xavier, Laura Erber, Miguel Rio Branco, Paulo Vivacqua, Roberto Cabot, Thiago Rocha Pitta e Tunga – por estarem juntos, exibem uma interdependência, tanto mútua, uns com (ou contra) os outros, quanto em relação à voz de uma curadoria, a da Lígia Canongia. Ao mesmo tempo, se submetem a uma ruptura. Não que não pesquisassem, uns mais, outros menos, antes, as novas tecnologias. Mas pelo fato de estarem juntos – e com o compromisso de mostrarem reflexos e projeções – é como se abdicassem, por pouco que seja, de uma linha pessoal para estabelecerem a forma desse espetáculo conjunto. É um espaço compartilhado em vez de um tempo individualizado. Outra vez. É, como já foi dito, uma marca do nosso tempo (sem ironia).

Reflexos e projeções postos nas mãos de oito consciências de igual valor. Há um grau de intercambiabilidade, se é que tal palavrão existe. São um pouco intercambiáveis. Um pouco, não muito. São escolhas individuais em como formalizar uma ética que, essa, é mais ou menos igual para todos. Ou, pelo menos, que todos adotaram provisoriamente para fazer essa exposição e que é a ética dos atos que coexistem lado a lado, simultâneos, ininterruptos. Não um só processo, uma só discussão sobre o que é bom (bonito?), o que é ruim. Mas muitos, tipo uma sopa borbulhante. Uma ética/estética não mais claramente perceptível, mas fluida, mutável. E que acontece no espaço, não na história. E em um espaço que uniformizou seus vestígios, sem identidade geográfica. Isso não quer dizer que as obras não tenham individualidade, mas que elas foram criadas a partir de parâmetros e condições que independem do que existia até então.

Sem questionamentos.

A não ser em dois casos: Miguel Rio Branco, Paulo Vivacqua.

Epilectronic, de Miguel Rio Branco
Epilectronic, de Miguel Rio Branco
O primeiro fez a instalação Epilectronic (junção de pileque epiléptico eletrônico) com o lixo tecnológico – placas, monitores – envolvendo suas projeções computadorizadas. O segundo fez Deserto, uma areia onde se enterram amplificadores e partes de aparelhos sonoros, na frente de uma tela onde não há projeções, muda.

Ambos usam a tecnologia criticamente, incluem um tempo no maravilhamento atemporal. É uma novidade.

Deserto, de Paulo Vivacqua
Deserto, de Paulo Vivacqua
Pois há um problema com reflexos (mais de um). O “igual valor” de que falávamos fica comprometido se houver reflexos primários e secundários, um reflexo de outro reflexo, em uma diluição não perceptível se as luzes forem, como são sempre, sedutoras ao olhar. E, caso o reflexo do reflexo esteja lado a lado com o reflexo, digamos, mais consciente, autoral, esse reflexo “imitador” não terá igual valor de consciência do que o outro, seu modelo.

Aqui, o problema fica teórico. Não há imitações, claro, e para saber disso bastava ler os nomes dos oito, sem ver. Mas há reflexos secundários e auto-reflexos. Roberto Cabot usa suas linhas sinuosas, já apresentadas no MAM em fevereiro desse ano. Tunga refaz sua fantástica Laminadas Almas. Ambos acrescentam particularidades, aperfeiçoam conceitos em algo já feito anteriormente. Antonio Dias usa o já clássico tríptico de telas lado a lado com uma mesma imagem em pontos de vista diferentes. A mesma coisa faz Daisy Xavier com mãos que acariciam a borda de um buraco, vistas de frente e de costas. Laura Erber usa uma idéia já vista no Emoção Art.ficial do Itaú de São Paulo em agosto, onde Camille Utterback e Romy Achituv apresentaram o Text Rain, feito em 1999.

Thiago Rocha Pitta, seguindo seu tom lírico, apresenta um trocadilho visual. Sua cascata, que desce a montanha, é similar à fumaça que a montagem de sua projeção coloca subindo do mesmo ponto da tela.

Todos em looping.

Várias dessas obras representam situações de pré-evento, evento esse que nunca chega: o homenzinho nunca consegue pegar todas as palavras que caem à sua volta, as mãos nunca acham o que procuram. É por isso que não se trata de um eterno presente. É um eterno futuro. Parado. As coisas, perdão, os reflexos, não ’são’. Indicam algo que está por vir, eternamente. E nessa não-existência, fogem de um fim não desejado. É importante essa promessa de um algo mais, de um novo reflexo, maior.

A exceção fica em Vivacqua e Rio Branco, que se põem a favor da causalidade, da temporalidade.

E como o estar lado a lado obriga à uma relação dialógica – não de confirmação mútua mas de mútua suplementação – a exposição afinal resulta, toda ela, em um interessante questionamento do que seja a liberdade artística. É certo que a ausência de eventos causadores dos reflexos e projeções significa uma liberdade, já que não há determinismo de espécie alguma. Mas se tudo coexiste e se influencia mutuamente sem aspirações a uma conclusão, será preciso usar um novo leque de significados, estar aqui também, no uso da palavra arte, em um zero sintagmático.

Pensamento positivo: não é a primeira vez que a arte mostra essa mudança do entendimento da sua matéria-prima, o tempo e o espaço. Na Renascença também houve o registro artístico de algo escandaloso: o tempo clássico, helenístico, não era mais capaz de incluir o futuro que as mudanças tecnológicas da época traziam. Lá era o contrário. Saía-se da eternidade dos fundos não determinísticos, abstratos, e entrava-se nas paisagem finitas, de horizontes mensuráveis. Agora volta-se a um infinito.

E com isso vem o lado ruim desse particular estar-no-(não)mundo: ninguém morre de vez, mas também ninguém vive muito.

(*) Comentário de Laura Erber, recebido por email de 22/11/06: Elvira, tenho lido as notícias sobre arte e novidades quentes no seu site. Mas olha, não posso concordar com essa identificação total entre meu trabalho (exposto na Telemar) e o trabalho da chuva de palavras da Camille Utterback e do Romy Achituv. Se eles têm em comum a chuva de palavras por outro lado são movidos por questões muito distintas. O meu gira em torno da questão da nominação, da auto-nomeação. A chuva inicial é uma solução visual para a entrada em cena das palavras, o que está em jogo é a relação entre um corpo sem identidade e a ação de apropriar-se de um nome que o singularizaria.

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Nada a dizer", 2010, Companhia das Letras.