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O Grande Truque

Christopher Nolan chamou atenção com o thriller Amnésia. Foi um filme barato, 9 milhões (de dólares) de orçamento, que arrecadou quatro vezes mais e gerou assunto por meses entre os cinéfilos. Guy Pearce sofria de amnésia e para não ser enganado pelos outros deixava bilhetes e tirava fotos para si mesmo. O passo seguinte deu a Nolan um orçamento de 46 milhões, e uma bilheteria de 113 milhões. Insônia subverteu o bom-mocismo de Robbin Williams, dividiu opiniões e atingiu suas metas. Como o seu antecessor, o filme analisava a mente humana, suas arapucas e desvios psicológicos. O projeto seguinte não podia ser mais acertado. Batman Begins custou a fortuna de 150 milhões, ganhou elogios de fãs, críticos e vovós cinéfilas e fez 300 milhões de bilheteria, fora a receita de DVDs. Depois de tantos batmans carnavalescos, lá estava um bom ator (Christian Bale) vivendo um cavaleiro das trevas legítimo.

O Grande Truque

Assumindo novamente roteiro e direção, Nolan convocou Michael Cane e Christian Bale para contracenar com outro figurão das adaptações de quadrinhos, Hugh Jackman. Para dar um toque feminino, escolheu Scarlett Johansson, atual musa de Woody Allen (ela e Hugh Jackman estão em Scoop, próximo filme do diretor). A equipe de peso estava armada, só faltava a boa história. Com um currículo desses, não há dúvida de que Nolan se sairia bem, dando de presente ao público um dos filmes mais inteligentes do ano.

O grande truque (The Prestige) conta a história de Alfred e Robert, dois mágicos rivais que competem por público na Londres vitoriana. A rivalidade começa quando ainda eram assistentes de palco e um erro de Alfred mata a esposa de Robert. O jogo de gato e rato faz com que um sempre tente desvendar/estragar o truque do outro e então roubar o seu público pagante, uma boa metáfora para o atual mundo corporativo.

Depois das reviravoltas, Alfred cria um número arrebatador (O homem transportado) usando uma novidade da época – a eletricidade – e Robert fica obcecado, investindo cada segundo para descobrir o segredo. As sutilezas de roteiro revelam aos poucos que o conflito é gerado por sentimentos distintos. Alfred vive o próprio ato e é visceral na tentativa de se superar. Robert quer apenas ser melhor que o concorrente, vencer a disputa pessoal que começou com o acidente. Esse embate ideológico constrói o terreno sólido para a revelação do final do filme, que provavelmente irá gerar variados debates filosóficos.

O Grande Truque

Como em todo trabalho do diretor, quem manda em The Prestige é a obscura mente humana. O que os personagens trazem dentro de si vale mais do que as aparências, o que se adéqua perfeitamente ao tema da mágica. Apesar do filme não se basear nos twists (é um drama acima de tudo), falar dele é correr o risco de estragar as surpresas, e ninguém quer ver David Copperfield sabendo o segredo no truque da serra. Por isso, só mais um comentário. Na cena que abre o filme, Cutter (Michael Cane) mostra um truque para uma menina. Ele coloca um passarinho na gaiola, coloca a gaiola debaixo do pano, esmaga a gaiola, retira o pano, a gaiola some, o passarinho retorna em suas mãos, encantando a menina. A verdade esta lá, mas ninguém assiste mágica para ver o truque, e sim para ser enganado. O roteiro de O grande truque é assim, mágica.  Tudo óbvio para o inconsciente, mas ignorado pelos olhos atentos do espectador.

Destaque para a versão bêbada de Hugh Jackman (será que um dia ele se livra dos estereótipos?), para o preciso Christian Bale (à altura de Ralph Fiennes?) e para a participação especial de David Bowie como o cientista maluco Telsa.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0004, em 10/11/2006

 

 

 

 

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