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O Homem ao Quadrado

Leon Eliachar e seu “O homem ao quadrado” têm um sabor especial. Foi o primeiro livro que li com vontade mesmo antes de conhecer os extra-classes do colégio. Eliachar era um comediante que sabia transformar o livro em instrumento do riso, usando até o sumário, o espaço pra dedicatória, sua biografia e uma lista de obras publicadas como piada inteligente.

“Nasci no Cairo, fui criado no Rio; sou, portanto, ‘cairoca’. Meu nome é esse mesmo, Leon Eliachar, tenho 44 anos, mas me orgulho de já ter tido 43, 42, 41, 40, 39, idades que muitas mulheres de 50 jamais atingiram”.

Na profissão desde os 19 anos, Leon Eliachar foi um dos maiores jornalistas humoristas do país, sendo consagrado por seus trabalhos bem elaborados tanto em rádios quanto em jornais e revistas.

O Homem ao Quadrado
O Homem ao Quadrado – 1ª edição pela Editora Paulo de Azevedo, 1960.
Licença editorial para o Círculo do Livro. – 4ª ed em 1976.

Sua definição de humor “Humorismo é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros”, levou-o a ganhar o prêmio da IX Exposição Internacional de Humorismo. É com ela que o autor abre o livro “O homem ao quadrado”. Logo após, nos dá uma lista de suas 24 obras literárias, escritas desde 1922. O mais distraído (existe leitor distraído) pode não perceber que 1922 é o ano de nascimento de Eliachar e que os títulos são todos piadas e ditos inéditos. Apenas o último é verdadeiro.

1922 – Por que nasci (inédito)
1924 – Como fazer amigos sem sujar as fraldas (inédito)
1925 – Como fazer fraldas sem sujar amigos (inédito)
1930/1945 – Meus quinze anos de silêncio (censurado).

As invencionices literárias não param nem no sumário. Eliachar o coloca de trás para diante, porque quem ri por último ri melhor. Na sua biografia, citada em parte acima, sugere que “a mulher ideal é a que gosta da gente como a gente gostaria que ela gostasse – isso se a gente gostasse dela. Para a mulher, o homem ideal é o que quer casar. Mas deixa de ser ideal logo depois do casamento, quando o ideal seria que não deixasse”. Eliachar encontra o humor no malabarismo das palavras, manuseia o verbo como uma pena na sola do pé.

Ele sabe que o humor não é apenas o sentido aplicado às palavras, e que a própria brincadeira com a fonética pode gerar gargalhadas. Tudo é passível de se transformar em instrumento do riso.

Fisgado pela isca introdutória o leitor chega aos contos, o ponto onde muitos livros de humor costumam começar. São histórias curtas, a maioria de uma página, que prendem a atenção em falsos dramas com piadas escondidas onde menos se espera. Em “a operação” um paciente relata uma operação cardíaca sofrida – transformada em um evento hilário – até que ouve o comentário dos médicos de que irá se salvar. Logo depois descobrimos que está contando a história para São Pedro.  Em “a dúvida” um homem que não acredita que sua mulher vai todo dia ao dentista começa a segui-la e descobre que ela realmente vai ao consultório.

“Foi aí que ele passou a dormir calmamente e a viver tranqüilo. E foi aí que ela passou a ter mais liberdade de trai-lo com o dentista”.

Deparamos-nos então com testes de lógica, onde a única lógica é a graça. Leon Eliachar brinca também com o sentido das palavras, criando um dicionário muito particular.

Biombo – o que separa a curiosidade de um lado e um assunto do outro.
Canhoto – sujeito que só escreve direito com a mão esquerda.

Abusando do visual, o humorista se apropria da arte moderna, faz desenhos, embaralha letras, cria diferentes datilografias fazendo piadas de datilógrafas e, enfim, assume o humor negro, colocando piadas em páginas negras com letras brancas. Em um capítulo só de assinaturas ele subverte o próprio nome e o formato das letras. “Leon Eliachato” e “Leon Eliac” (com desconto) são algumas das criações.

Eliachar mostra ao leitor um consultório sentimental via cartas, dá dicas de educação politicamente incorretas para os filhos, usa os rascunhos do livro para criar um novo capítulo de piadas com as próprias piadas usadas anteriormente. Não há artifício ou espaço não manipulado. Tudo é assunto para o humor inteligente.

Como ele mesmo dizia “humorista bom é o que traz sempre um sorriso nos lábios dos outros”. Infelizmente há pouco material biográfico sobre Leon Eliachar. Transformando-se em sua obra, o que encontramos são relatos do próprio e de amigos próximos, todos mudando os fatos para gerar a piada. O humorista morreu em 1987, assassinado no Rio de Janeiro, supostamente vítima de um homem rico, marido de sua amante.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: edicao_0004, literatura, em 13/11/2006

 

 

 

 

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