Yann Marussich
Nos dias 7 e 8 de novembro de 2006, na Galeria Vermelho em São Paulo, Yann Marussich apresentou sua performance Traversée que pode durar até seis horas, dependendo de como a assistência se comporta.
Marussich fica imóvel, deitado sobre uma solução de pigmento e óleo no inÃcio de uma esteira que usa todo o comprimento da sala. Está preso pelo pescoço a uma roldana que, acionada, o puxará até o final da esteira, deixando uma imagem feita pela passagem do corpo no lÃquido colorido.

joelho “sangrando” em azul
Várias coisas. Primeiro, ele recupera um pouco das performances dos anos 70, quando a transgressão maior era a violência feita contra o corpo, em uma fronteira que beirava o ilÃcito. Quem puxa a roldana é o público que, assim, é obrigado a atuar claramente um sadismo que em geral prefere deixar velado. A pessoa aciona a roldana, a corda estica, parece apertar o pescoço e o corpo inerme e nu se move mais uns centÃmetros em direção ao final. A referência à Carole Schneenmann e outros da cena novaiorquina daquela época se dá também em um filme mostrado antes de a performance começar, onde lÃquidos corporais são substituÃdos por fluxos azuis que saem de ferimentos, nariz e boca. Tanto na performance quanto no filme há a referência e também um comentário: o “sangue” no filme é falso, é uma tinta azul; o enforcamento da performance também é só aparente, pois a corda passa por um nó na nuca. Assim, Marussich lembra a importância em se recuperar as sensações vividas mas, ao mesmo tempo, diz que isso não é mais possÃvel.

o artista
Outra coisa - que é um pouco a mesma coisa: ele é um dançarino e, no entanto, fica imóvel. O movimento corporal é latente. De olhos fechados e nu, são suas veias que pulsam, o peito que incha e desincha com a respiração. É mais uma vez uma recuperação do movimento mais básico, os outros não sendo mais possÃveis, significantes.

a imagem “pintada”
E, terceiro, é ele que “pinta” a imagem que fica na esteira depois de ser arrastado através da esteira. É o seu corpo, ele inteiro, fisicamente, o “pincel”. Como sempre acontece quando é o corpo em sua totalidade a participar de um ato, há uma volta a um sentido ético, de responsabilidade orgânica pela ação cometida. E, aqui também, há essa volta e o comentário de que ela não parece possÃvel, já que a ação se dá em um trajeto já marcado, determinado. A única escolha é a da assistência, que aqui não merece o nome, já que é ela quem puxa a corda, em vez de ficar assistindo a alguma coisa.
O resultado é, para todos, a vivência de algo que foi feito.
É rara. Nossos atos não costumam ser tão nÃtidos.
Elvira Vigna é escritora e crÃtica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.



















