Bienal 27
Primeiro tem a questão da ontologia. A 27ª Bienal de São Paulo traz, ao lado de cada obra, um texto explicativo, uma bula. Fica difÃcil saber como seria a recepção das obras sem isso. O texto diz o que o autor quis fazer e diz mais, diz que ele viveu em tal ou tal outro lugar exótico, que trabalha com essa ou aquela comunidade carente etc.
E um agravante: o politicamente correto, insuportável.
Mas eu vi inteirinha, e mais a paralela do Prodam e a da Oca. Só escapou o MAM com os concretistas porque eu os acho monótonos.

O bom e o ruim, começando com o bom.
Shaun Gladwell, da Austrália, armou dois vÃdeos que passam um ao lado do outro. Em um, um aleijado faz evoluções no seu skate. No outro, uma stripper faz evoluções na sua barra. Chama-se Double voyage e a comparação é evidente e cruel. Há mais uma crueldade: os filmes começam antes do começo. Ou seja, você vê a stripper chegar, cara cansada, se apoiar na barra, esperar, e só aà a música começa e ela faz um primeiro movimento com os quadris. TerrÃvel.

Stripper de Double voyage
Fernando Ortega, México, fez um vÃdeo de quatro minutos de um ciclista em uma estrada. Ele pedala seu veÃculo com um anexo acoplado, onde leva mulher, ventilador e outras tralhas. O ventilador gira suas pás por causa do vento. A música é de Caetano Veloso. Chama-se Para Xó e é lindÃssimo ao mostrar a simultaneidade de dois tempos, o antigo, do ciclista, e o atual, o da rodovia, com os carros modernos que o ultrapassam. Não que ele se importe. Continua lá, pedalando, parece feliz.
Marilá Dardot, uma artista da Galeria Vermelho, filmou em câmera fixa uma cidade à noite, ao longe. Só umas poucas luzes tremem, pequenos movimentos em um todo parado. Chama-se Constelação, tem 46 minutos e dá uma idéia muito boa sobre o frenesi urbano, quando visto a uma certa distância.
Em uma outra obra, ela põe frases em murais. Uma delas poderia dar um bom resumo da Bienal: “Tout s’est passé ensuite avec tant de précipitation, de certitude et de naturel, que je ne me souviens plus de rien.”
A mineira Mabe Bethônico é a responsável por um dos poucos momentos de humor da exposição. Ela reuniu as perguntas mais freqüentes da Bienal anterior. Se Dardot põe o mito urbano em perspectiva, Bethônico faz o mesmo em relação à arte. O público não está nem aà para a arte.
Algumas das perguntas:
- “É por aqui que entra?”
- “O que está tendo aqui?”
- “Aqui é a Bienal do Livro?”
- “Precisa de convite para entrar?”
- “Quanto custa para entrar?”
- “Vocês aceitam doações d obras de arte?”
- “Pode entrar com cachorro?”
- “Onde é o bebedouro?”
- “Essa exposição tem quadro de Picasso?”
- “Onde é o restaurante?”
- “Como faz para expor aqui?”
E uma das obras mais fortes - e mais simples - é a de Ahlam Shibli, de Haifa. Ele fotografa a vida de gays, travestis, em sociedades fundamentalistas.
O ruim fica com Martinho PatrÃcio, da ParaÃba, que quis fazer uma homenagem à Lygia Clark e pôs uns módulos para o público montar. Só que uma funcionária do museu explica que a permissão de mexer nas pecinhas se resume a dois montinhos laterais, bem pobrinhos.
A americana Barbara Visser, em seu Transformation House, mostra … uma sombra chinesa! Sem ironia. Ou seja, a tecnologia deu tanta volta que acabou inventando sua avó.
Mas a medalha de ouro em politicamente correto vai para Minerva Cuevas, de Cuba, que em sua Terra Primitiva se deu ao desfrute de escrever, caso alguém tivesse dúvida: “o homem branco tem medo de escutar.”
Parabéns, Flipper.
Há uns dez anos, Zé Ramalho e Zeca Baleiro fizeram uma música chamada Bienal, que eu não sei se chegou a ser gravada.
Segue a letra, para gáudio do leitor:
Bienal
Desmaterializando a obra de arte no fim do milênio
Faço um quadro com moléculas de hidrogênio
Fios de pentelho de um velho armênio
Cuspe de mosca, pão dormido, asa de barata torta
-
Meu conceito parece à primeira vista
Um barrococó figurativo neoexpressionista
Com pitadas de art-nouveau pós-surrealista
Calcado na revalorização da natureza morta
-
Minha mãe certa vez disse-me um dia
Vendo minha obra exposta na galeria
Meu filho isso é mais estranho que o cu da gia
E muito mais feio que um hipopótamo insone
-
Pra entender um trabalho tão moderno
É preciso ler o Segundo Caderno
Calcular o Produto Bruto Interno
Multiplicar pelo valor das contas de água, luz e telefone
Rodopiando na fúria do ciclone
Reinvento o Céu e o inferno
-
Minha mãe não entendeu o subtexto
Da arte materializada no presente contexto
Reclicando o lixo lá do cesto
Chego a um resultado estético bacana
-
Com a graça de Deus e Basquiat
Nova Iorque me espere que eu vou já
Picharei com dendê de vatapá
Uma psicodélica baiana
-
Misturarei anáguas de viúva
Com tampinhas de Pepsi e Fanta Uva
Um penico com água da última chuva
Ampolas de injeção de penicilina
-
Desmaterializando a matéria
Com a arte pulsando na artéria
Boto fogo no gelo da Sibéria
Faço até cair neve em Teresina
Com o clarão do raio da silibrina
Desintegro o poder da bactéria
Elvira Vigna é escritora e crÃtica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.



















