maguarras17.jpg

maguarras16.jpg

maguarras15.jpg

maguarras14.jpg

maguarras13.jpg

maguarras12.jpg

maguarras11.jpg

maguarras10.jpg

maguarras09.jpg

maguarras08.jpg

maguarras07.jpg

maguarras06.jpg

maguarras05.jpg

maguarras04.jpg

maguarras03.jpg

maguarras02.jpg

maguarras01.jpg

 

Eduardo Monteiro na Fundação Eva Klabin

Diz um velho e conhecido dito popular que os melhores perfumes vêm nos menores frascos. Pode-se contrapor que o mesmo ocorre com os piores venenos. Na noite da última quinta-feira esse dito me esteve em evidência. Dando seqüência à série “Quintas com Música“, a Fundação Eva Klabin - um distinto museu, ainda que alguns teóricos possam discordar desta ou daquela definição de “museu” –, notável espaço cultural, tanto por suas iniciativas e propostas quanto por seu espaço em si, trouxe à sua sala de música o pianista Eduardo Monteiro. Àqueles que se deixam intimidar pelo “reservas pelo telefone” ao folhear a programação musical do mês, devem, com urgência, rever suas atitudes. O que a Fundação Eva Klabin oferece ao seu público musical, a medir pelo que pôde ser visto neste evento, é algo digno de nota. Uma recepção simpática, quase intimista, num espaço mais que agradável. Tudo ocorre com a tranqüilidade de um museu, a exclusividade de uma mansão e com a simpatia de quem sabe receber pessoas.

Eva Klabin

Infelizmente Eduardo Monteiro ainda não dispensa apresentações ao grande público, mas a valer por sua carreira e seu currículo, essa demanda já deveria ter-se encerrado há tempos. É daqueles profissionais com quem não podemos fugir da seguinte construção: sua trajetória fala por si. Só para pincelar parte de seu espectro musical, vale dizer que estudou no Rio de Janeiro, na França, na Itália e nos Estados Unidos. Primeiro lugar do Concurso Internacional de Colônia (Alemanha) e Prêmio Carlos Gomes “Pianista do Ano” duas vezes, em 2004 e 2005. Não se pode negar atenção a um artista desse quilate.

O programa, graficamente muito charmoso por sinal, exibia uma larga distribuição de obras. Villa-Lobos, Leopoldo Miguez, Lorenzo Fernandez e Beethoven. A sala de música, quase em “formato de capela”, no sentido arquitetônico, é um espaço dos mais aconchegantes, contemplativo até. Eduardo Monteiro fez uma ousada e simpática apresentação oral de suas obras, apropriadíssimo para o espaço, sem ser piegas e sem proclamar “verdades supremas” sobre como interpretar esta ou aquela obra, conversando com o público, exibindo os pontos de vista de um estudioso que vai além das teclas, que suja-se com a poeira de documentos antigos e equilibra-se em escadas de biblioteca. Com forte verve historiográfica em sua “aula”, remontou ao público a imagem do que pode ser um pianista para além de sua técnica. Deixou claro que para ele não vale a máxima de Bernard Shaw de que “ensina aquele que não sabe fazer mais nada” (”He who can teaches. He who can not does.“). Evidenciou-se esta recusa, sobretudo, quando as primeiras notas puderam ser ouvidas.

Eduardo Monteiro

Em Impressões Seresteiras, seu Villa-Lobos soou rítmico, enérgico. Digo isto pois é uma peça, ou melhor, um autor, em que a questão rítmica está longe de ser simples. Esta é uma obra singular, que caracteriza um dos maiores compositores de nosso tempo. Monteiro deu esta tônica. Igualmente pode-se dizer de Homage à Chopin, do mesmo autor, magnífica, sobretudo depois de sua breve explanação sobre a obra, rara oportunidade teve o público daquele noite. A seguir o programa brindou-nos com o inspiradíssimo Noturno op. 10 de Leopoldo Miguez. Pode-se dizer o mesmo do intérprete, inspiradíssimo. Depois ouvimos os deliciosos Três estudos em forma de sonatina, que para mim é uma sonatina que nada deve a uma peça de Clementi, bem como, e Eduardo Monteiro tem razão ao dizer, o noturno de Miguez é digno de um Chopin. Pena estas obras ficarem tão afastadas das salas de concerto. Mais pesaroso é a obra de Fernandez estar afastada das salas de aula. Talvez o Miguez e o Fernandes tenham sido o ponto alto da noite, sobretudo pela originalidade de apresentá-los daquela forma. Mas este é um pensamento de quem ainda não havia ouvido a Sonata em lá maior, op. 57, a «Apassionata». É uma obra sombria, desesperada. Mostra um Beethoven atormentado, porém lírico. É uma obra de um subjetivismo imenso, um desafio para qualquer pianista e para todo espectador. Inicia-se com um grito de desespero e derrama-se, depois, em variações quase esperançosas, reflexivas, intuitivas. Seu moto perpétuo final, sobretudo no prestíssimo desfecho, é um tremendo desafio para qualquer virtuose. Os gritos de “bravo!” no final não foram gratuitos, nem frutos de cordialidade. Foram merecidos e falam, como a apresentação, por si só.

Num lugar pequeno, onde a entrada é quase exclusiva e a proximidade com o artista e o público é enorme, qualquer adição ruim, seja de um artista medíocre e/ou de um público desagradável, pode transformar-se em uma cilada infernal, incontornável, para alguém cujo único desejo é ouvir boa música e estar num lugar gostoso. Mas também nos pequenos frascos vêm os grandes perfumes. E para quem esteve na Fundação Eva Klabin na última quinta-feira, a noite foi de sândalos, e do mais ativo olor.

 

 

 


Fillipe Trizotto

 

editoria: edicao_0004, música, em 14/11/2006

 

 

 

 

MinC

 

 

RSS

design © Vigna-Marú

Este site utiliza o AdSense do Google. Clique aqui para saber mais sobre a sua política de privacidade.