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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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19/11/2006

Os Infiltrados

Third is charm. A terceira parceria improvável de Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio, quem diria, é um filmão com fôlego para duas horas e meia de adrenalina. Não, a questão não está nas perseguições de carro e nos tiroteios desgastados, mas no processo medular que libera doses constantes de roteiro inteligente, direção precisa e atuações memoráveis (bem, quase todas). Você deve estar pensando: todo filme de gangster é igual. Tem a quadrilha e um policial infiltrado que começa a se afeiçoar ao chefão e fica cheio de dilemas morais na hora de puxar o gatilho, certo? Errado, a começar pelo “dilema moral” que aqui não tem espaço. Em Os Infiltrados, a polícia pega o seu candidato menos provável a bom policial (DiCaprio) e o convence a se infiltrar na quadrilha do mais violento gangster da área (Jack Nicholson). O problema é que o velho gangster também infiltrou um dos seus na polícia (Matt Damon) e vai usá-lo para descobrir quem é o rato deles. Se perdeu? Vamos lá. DiCaprio infiltrado na gangue tenta descobrir quem é o rato infiltrado na polícia. Matt Damon infiltrado na polícia tenta descobrir quem é o rato infiltrado na gangue. O joguete de gato e rato vira um jogo de rato e rato elevado ao quadrado. E para melhorar, os limites entre os policiais e a quadrilha são tênues, sem aquele papo chato de mocinho e bandido.

Os Infiltrados

O filme está indo muito bem nas bilheterias, em um mês já arrecadou 170 milhões, e é forte candidato ao Oscar nas categorias filme, direção, roteiro, ator (DiCaprio) e ator coadjuvante (Nicholson), sem contar a parte técnica. O mérito de Scorsese está em não subestimar o espectador, conduzi-lo por uma boa história e arrancar a alma dos atores, transformando-os de verdade nos personagens que idealizou. O preciosismo de O Aviador e Gangues de Nova Iorque sai de cena, entra o estilo de Taxi Driver e a psique de Cassino.

Se você ouvir por aí elogios à atuação cheia de improvisos de Jack Nicholson com seu gangster psicopata e desregulado, acredite, é verdade. O elo fraco fica por conta de Matt Damon, que de policial corrupto Colin Sullivan, de irmão Grimm ou de Bourne desmemoriado tem a mesma cara de sempre.

Os Infiltrados

Os personagens secundários são um atrativo extra, o que mostra que o capricho e o envolvimento da equipe com o projeto foi total. Alec Baldwin faz um policial tradicional, chefão, daqueles bem burros, que é enganado por todo mundo e se acha o rei do departamento. Martin Sheen e Mark Wahlberg (cada vez melhor) são os chefes do departamento, os únicos que sabem que DiCaprio é o infiltrado, e estão em contato direto com Matt Damon. Vera Farmiga é a psicóloga que trata de ex-policiais (DiCaprio de novo) e acaba se apaixonando pelo maior destaque da força policial (o rato de Damon).

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

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