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Volver de Almodovar

Faça um esforço e esqueça filmes dispensáveis como Bandidas ou Sabor da Paixão. Agora pense em Penélope Cruz como uma atriz de filmes importantes. A lista passa por Belle epóque (vencedor do Oscar de filme estrangeiro e de 9 Goyas), a estranha comédia Sem notícias de Deus, com anjos e demônios politizados, e o aplaudido Abre los ojos, que gerou o remake sem gosto Vanilla Sky, também com participação da atriz. Com Almodovar ela participou de Carne trêmula e Tudo sobre minha mãe, retomando a parceria com uma belíssima atuação em Volver.

O filme segue à risca a fórmula consagrada pelo diretor: equilíbrio entre direção, roteiro e atuação, sem que um ofusque o outro. O primeiro passo é escolher um lugar comum, com o qual o espectador possa se identificar. Pode ser um teatro, um restaurante, um pátio de igreja ou um cemitério. Depois, discretamente, começa o distanciamento da realidade. A arma principal é a comédia. Na comédia, tudo é possível, as pessoas rolam por escadas ou despencam de uma janela sem se quebrar. Ela tem o poder de isolar a lógica que move um filme do ambiente exterior (o nosso cotidiano), tornando mais fácil assimilar as situações propostas. É assim que Almodovar lança mão do limite do absurdo e fica livre para abusar de outro artifício estrutural, o melodrama. Usualmente, o melodrama corre o risco de levar o filme para o ridículo ou de deixá-lo tão pesado que drene o espectador. Aliado a comédia, ele permite a manipulação do exagero, a extrapolação das emoções e uma visão mais real dos personagens, conectando o espectador direto aos seus sentimentos e motivações. Assim, é possível se aproximar do riso sem eliminar o drama, recurso usado pelo diretor com maestria todos esses anos.

Volver de Almodovar

No melodrama o trágico é realmente trágico. Não basta o vizinho morrer de ataque cardíaco, ele tem que morrer depois de brigar com a irmã mais nova que não via há dez anos e que tinha vindo à cidade contar que sua mãe milionária morreu sem incluir o nome dos filhos no testamento.

Almodovar costuma reservar o papel desencadeador da tragédia para o personagem masculino. No filme, esse elemento é Paco, o marido vagabundo e tarado de Raimunda (Penélope Cruz). Com sua cartada trágica tradicional, Almodovar tira o chão de Raimunda e sua filha, deixa-as tão desamparadas que o espectador não resiste e se torna solidário, cúmplice, testemunha torcedora do desenrolar da história.

Volver começa com diversas mulheres limpando seus futuros túmulos no meio de uma ventania, uma tradição da cidade. Como nos bons filmes nada é por acaso, a cena emblemática anuncia o tema da película: a morte. Teremos então um assassinato, uma morte por velhice, uma doença terminal, uma “ressurreição” e a morte psicológica causada pelo acúmulo de sentimentos e mágoas. Dos três parceiros da morte – o heroísmo, a amizade e a família – Almodovar escolhe o último, e monta uma família só de mulheres, que lidam com as transformações causadas por essas mortes pontuais. O toque sobrenatural-cômico fica por conta de Sole (Lola Dueñas), irmã de Raimunda, que começa a ver o espírito da mãe quando visitam a tia que está para morrer. Para fechar o tripé, Almodovar utiliza o “segredo”, elemento de todos os filmes de família e o aproxima do DNA, algo a ser passado de pai para filho. Aqui, todas as personagens têm os seus segredos, e é a revelação de cada um deles fará o filme avançar até o abraço final.

Volver de Almodovar

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0004, em 24/11/2006

 

 

 

 

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