Maria Bethânia
“Eu sou o solitário e nunca minto
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto”
– Sophia Breyner em Catilina.
As cortinas vermelhas se abrem e a mini-orquestra anuncia Maria Bethânia. A cantora surge como um orixá entre os mortais, revestida de força juvenil. Iansã personificada, Bethânia é humilde perante a música e expressa uma alegria incontestável. Basta estar, mesmo calada, para contagiar o público ainda se ajeitando nas cadeiras do VivoRio.

O palco é bem projetado, com pontes, caixas e um painel de nuvens carregadas que casa perfeitamente com a voz trovejante da cantora e o tema das águas. O repertório do show Dentro do mar tem rio é baseado nos dois cds que a intérprete lançou esse ano: Mar de Sophia e Pirata. O primeiro é inspirado na obra de Sophia Breyner, o segundo lembra um tratado de memórias sobre as águas. O show é dividido em duas partes. Entre uma troca de roupa e outra, o público se deleita com a orquestra, que não deixa a música parar. As poesias que Bethânia recita integradas à s músicas são uma emoção especial. Não é todo dia que belas melodias tocam (e mesmo se roçam) na poesia de Ãlvaro de Campos e Fernando Pessoa. No bis, quando a Iemanjá prateada se despede com um pot-pourri de marchas de carnaval, a vontade é sentar e começar tudo de novo.

“Navegar é preciso, viver não é preciso”
– Fernando Pessoa.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.



















