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A ficção, o terror e a fantasia são gêneros que ainda engatinham no Brasil. Há pouca aposta das editoras e a qualidade do material publicado é baixa, seja qual for a relação de causa e conseqüência. Por isso, o lançamento de A mão que cria deve ser comemorado pelos fãs de ficção nacional.

A Mão que Cria

No livro, Octavio Aragão aposta na ficção alternativa, uma espécie de universo paralelo com a história similar à nossa, mas com pesos e influências diferentes dos acontecimentos. Na realidade proposta pelo escritor, Julio Verne é eleito presidente da França em 1886, logo após a morte de Napoleão III, e promove uma grande corrida tecnológica. Outro detalhe importante é a existência da Fundação Moreau, que busca o aperfeiçoamento de espécies animais e acaba influenciando as experiências genéticas vindouras. Seus seguidores levam os experimentos à frente e em 1916 surge o primeiro projeto bem-sucedido da Fundação, o híbrido homem-golfinho – não só um soldado melhorado, como um excelente trabalhador.

Enquanto isso, um asteróide cai na Sibéria e todas as equipes que vão pesquisá-lo desaparecem. Os segredos em torno desse evento influenciarão de forma decisiva os confrontos da Segunda Guerra Mundial. Qual será a estratégia de Hitler para combater os homens híbridos franceses? Como ele usará o asteróide?

“Valentim Pavlov era o responsável pelas armas e pela organização tática da expedição. O professor Webb, receoso de que sua equipe sofresse o mesmo fim da anterior, ordenou retirada imediata, apesar do arsenal que traziam: doze rifles de repetição winchester, vinte e quatro pistolas e revólveres de vários calibres e até uma nova versão portátil da metralhadora francesa marseilleuse, cuja concepção original era do próprio Julio Verne.”

Octavio Aragão é um escritor seguro. Ele aposta no que está criando e não perde tempo tentando se justificar. É importante haver a lógica que sustente o universo fictício, mas tendo isso estruturado, devemos embarcar na viagem sem olhar para trás, e Octavio sabe disso. A prova concreta é o tempo que voa enquanto acompanhamos o duelo entre Ariano e Lours no presente, e um flashes do passado. No início, as referências podem confundir um pouco o leitor menos acostumado, mas ao se compreender a brincadeira com nomes e fatos reais e a elaborada pesquisa necessária, as citações se tornam qualidades, pontos marcadores da linha do tempo.

“Ao término da Segunda Guerra Mundial, os anfíbios eram um problema em potencial. Mais longevos que os homens comuns, capazes de sobreviver submersos por muito tempo, o maior motivo que os havia atraído à Fundação Moreau era a possibilidade de fugirem da miséria (…) O contingente de híbridos e humanos desempregados na Europa tornou-se uma ameaça à estabilidade social”.

Toda ficção que se preze é um espelho do real. Só é permitido voar, ter a cabeça nas estrelas, quando os pés continuam no chão. Ciente disso, Octavio Aragão tece em A mão que cria críticas à nossa sociedade, alfineta preconceitos, aborda a cegueira religiosa, a falência do modelo capitalista e armamentista e os sentimentos que realmente movem o homem na sua ambição.

Octavio Aragão também é o criador de um dos universos mais ricos da ficção científica mundial, o Intempol.

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