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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 27, setembro & outubro de 2010

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10/12/2006

Eruditos

“Sempre haverá um reduto para os esnobes se expressarem”, diz Caetano Veloso, ao versar sobre sua repetida tese de que, aos olhos da cultura dos anos sessenta, roqueiro ser arrogante é paradoxo. Caetano argumenta que o Rock, assim como surgiu nos grandes centros culturais brasileiros na década de sessenta, era “lixo cultural”. Entenda-se, não que Caetano necessariamente assim considerasse o som das pedras rolantes, mas que sobre este, sem dúvida, não pairava a mais fina camada de legitimidade social geral na época.

Não era odiado, mas entre entendedores e amantes da música, popular ou erudita, e no senso comum geral, o estilo americano era digno do mais risível desprezo, atitude compulsória de quem postulasse uma intelectualidade, ou mera maturidade, superior a de um garoto de 14 ou 15 anos de idade. O objeto dessa curiosa análise é o fato de, nos dias de hoje, roqueiros – principalmente os roqueiros – outorgarem ao seu gênero, o rock, da maneira como foi cunhado e lapidado pelos grandes mestres do rock ‘n roll do século XX, o selo da pureza musical. Ou mais “grave” o fato de considerarem-se, uns aos outros, os donos-da-verdade, do bom gosto, quando se fala de música e, principalmente, de tudo que se relaciona ao Rock. Destróem com seus pseudo-ácidos comentários movimentos artísticos inteiros ou estilos seculares sem sequer pestanejar. Em razão de recentes lançamentos em sua discografia (Cê, 2006.A Foreign Sound, 2004.) contendo faixas com muitos elementos de rock, incluindo títulos consagrados do gênero roqueiro como “Come As You Are”, do Nirvana, Caetano argumenta que não se pode esperar maior reação, indignação mesmo, às ousadias e às liberdades tomadas do que as que vêm do “pessoal do rock”. Em síntese, o que Caetano assinala é o fato de um gênero outrora digno do mais legítimo descrédito constar hoje na topo da lista das “tribos” – conceito complicado – de maior teor crítico e/ou purista, distribuindo “isto vale” e “isto não vale” por toda parte na cena musical de hoje, de ontem e de sempre. A dizer pela frase que inicia este artigo, essa postura esnobe é antiga, e é apenas curioso, e paradoxal ao olhar de uma época, que esteja operando hoje, principalmente, no reduto do rock ‘n roll. Mas não apenas.

Em tempo vale dizer que esta análise atual, oportuna e original, tende a um reducionismo perigoso, afinal quem são os roqueiros ou o que é o rock hoje? Do mesmo modo podemos perguntar, quem é o público de música erudita hoje? Se os esnobes e arrogantes encontram um espaço agradável no rock, isso é porque não conhecem o mundo da música erudita. Se uma releitura muito ousada de um clássico do rock coloca o intérprete numa posição de ataques e de críticas do “pessoal do rock”, na música erudita um detalhe dos mais frágeis, dos mais imperceptíveis, coloca o artista numa arena. Não estou falando de atravessadas monumentais, de “bumbadas” na pausa, como se diz. Um vacilo de pedal, um dedo milimetricamente descolocado em uma corda, uma entrada invisivelmente insegura de um naipe para profissionais sérios e dedicados serem sumariamente atirados à fogueira. E os inquisitores, em geral, são os mesmos que no dia seguinte aplaudem as mais “belas” atrocidades da música, só por terem nome e sobrenome no palco do municipal. A comida dos leões e as brasas das fogueiras são, via de regra, belos, competentes e desconhecidos profissionais, tentando viver honestamente da boa arte que fazem. O principal instrumento deste tipo de público é o “dois pesos duas medidas”, conceito que leva, em geral, no embalo da obviedade. Um leve esbarrar de teclas numa interessante e competente (às vezes brilhante) execução de uma sonata e logo dizem para as poltronas à sua volta: “É… Liszt não é pra qualquer um!”. Uma barbaridade sendo executada e: “Ahh… que beleza, fulano é fulano!”.

Claro que abordagens sociológicas ou psicológicas dariam belos ensaios. Este também não é um texto contra a arrogância, é apenas um ponto de vista a ela no cenário do público de música. Afinal, de certo modo, afirmam alguns, podemos visualizar a história intelectual do ocidente como uma história da arrogância, com cada filosofia declarando possuir a verdade, colocando as outras, às vezes, quase em posição de ridículo. Essa postura esnobe não está ligada ao nível de “iniciação” que se tenha neste ou naquele gênero e é democrática como poucas coisas. Podemos olhar para aquele público de música clássica não contabilizado por não ser um espectador “qualificado”, tradicional. A pessoa que vai às salas de concerto, compra CDs, baixa mp3 (principalmente) sem saber direito o que é uma sonata, se Liszt foi contemporâneo de Chopin, quem é Horowitz ou Shlomo Mintz. Não especialistas, de muito bom gosto. Ora, neste quadro, estes apreciadores de arte são muito próximos, extremamente ligados, aos melômanos, aficcionados, especialistas em música que, ao contrário de muitos de seus pares, dispensam a arrogância gratuita e preferem deixá-la para momentos mais selecionados e para audiências mais apropriadas. Olhar o publico dividido por sua postura diante da música, da arte, não pelo grau de “iniciação” ou conhecimento na e da mesma. Será que poderíamos fazer o mesmo com os críticos de arte? “Sempre haverá um reduto para os esnobes se expressarem

 


Fillipe Trizotto