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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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11/12/2006

O Ilusionista

Nem sempre a metalinguagem se reveste de obviedade como ocorre em novelas radiofônicas sobre o rádio, livros sobre a feitura de livros ou filmes com cinemas, caso de Lisbela e o prisioneiro. A sétima arte, sétima pela exigência dos sentidos plenos, abre possibilidades que complicam a equação matemática, trazendo junto com elas certas responsabilidades que pousam mais do que repousam nos ombros dos roteiristas e diretores. Um tema nunca deve ser levantado em vão. Se a Segunda Guerra Mundial não agrega nada ao romance do pecador apaixonado pela vizinha, traga-o para os dias de hoje, busque o sentido além da plasticidade. O Ilusionista, filme com Edward Norton, Paul Giamatti e Jessica Biel, recai sobre um erro grosseiro, esse que é desprezar o tema tratado e torná-lo um vislumbre visual.

A mágica é um dos temas mais traiçoeiros do cinema. Na era megalômana dos Harry Potters voadores e seus dragões desenfreados, mágica e magia tornaram-se antônimos narrativos. Na magia o absurdo está de braços dados com a fantasia e cuspir fogo é corriqueiro. Na mágica há o homem, aquele que engana com engenhocas, treino e raciocínio os olhares mais próximos e atentos, dispensando a ajuda dos Merlins de plantão. A mágica possui um concorrente/aliado de peso nos dias de hoje. Ele se chama cinema, esse jeito atraente de transformar o que não existe em realidade dentro da tela.

O Ilusionista

A fragilidade do roteiro de O Ilusionista se revela logo nas primeiras cenas. Com cinco minutos de filme, somos jogados em um flashback despropositado que conta a infância do personagem principal. Após encontrar um mago perdido na floresta, o pobre plebeu começa a treinar alguns truques. Um dia na cidade, ele esbarra com a jovem duquesa von Teschen, com quem começa um romance secreto. Ó garoto pobre que não sabe o seu lugar. Os jovens, claro, planejam fugir, mas são separados pelos riquíssimos pais da duquesa. O desolado aprendiz de mago resolve então viajar pelo mundo. No seu retorno triunfal, o plebeu se tornou Eisenheim, um famoso ilusionista que lota os teatros da Ãustria. É tão talentoso que até o príncipe resolve ver seu show.

Eisenheim começa bem o espetáculo. Tira e joga as luvas para a platéia, que vê abismada dois corvos voarem pelo teatro. Depois, faz uma semente de laranja se transformar numa laranjeira, manipulando o tempo, uma bela referência ao cinema. Em um número especial, Eisenheim pede um voluntário da platéia que não tenha medo da morte. O príncipe então se levanta e indica sua futura esposa, Sophie. Quando ela chega no palco, surpresa, adivinhem quem ela é?

O Ilusionista

Há algo de errado em um filme em que o espectador descobre o final com 15 minutos de exibição. Pior ainda quando esse filme fala de mágica. A mágica (e não a magia) evoca o segredo, a arte de enganar, de fazer parecer o que não é. O clímax do filme deve ser a revelação do que estava diante dos olhos e não vimos, já que o cinema nos permite descobrir o truque, enquanto os mágicos jamais o revelam. A obviedade, portanto, elimina da narrativa tudo o que poderia surpreender e fechar diegeticamente a simbologia metalingüística. E se tudo isso funcionasse bem, alguém ainda agüenta o plebeu super-herói contra o príncipe malvado que bebe, caça, bate nas mulheres e tem raiva do pai?

Neil Burger não está perdido só no péssimo roteiro que repete as mesmas informações, tem diálogos primários e segue uma linearidade insuportável. Sua direção também é vazia e equivocada. A câmera parece nunca estar no lugar certo, perseguindo o ângulo mais do que o conteúdo. Para piorar, uma estranha obsessão por ângulos exagerados mostra todas as peças necessárias para se desvendar o mistério (com muitas aspas, por favor) do filme. Então, se de repente a câmera der um zoom na garrafinha em cima da mesa, você já sabe, não foi o câmera que tropeçou.

Para fechar com chave de ouro, idéias chupadas de Romeu e Julieta e, descaradamente, de Os Suspeitos, numa cena que faz as paródias do Saturdat Night Live parecerem obra de Shakespeare.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

O Ilusionista



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