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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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13/12/2006

contra-cultura

A partir de meados de dezembro de 2006 e até fevereiro de 2007, as imagens exibidas no telão da cafeteria do Oi Futuro são as de Ricky Ferreira. Feitas durante os anos 60, mostram o movimento de contra-cultura em Nova York.

Definir se as fotos são boas ou não, e se representam ou não o que pretendem, depende portanto de uma definição anterior, a do movimento.

Ricky Ferreira
Gosto de considerá-lo um reflexo sobre o fim da ilusão de perfectibilidade que se mantinha desde o Iluminismo. Nas artes e literatura, a experiência meio autoritária do modernismo se combinava com uns sentimentos de perda, melancolia e anseios que tinham muito de romântico. Mas era como se o romantismo, típico do século anterior, retornasse comprimido todo ele em uns poucos anos, com o otimismo do começo e o pessimismo do final, lado a lado no mesmo banco de praça.

De uma coisa Ricky escapou: do simbolismo. Suas fotos mantêm uma objetividade de observador e não entram na espiral de metáforas e obscurantismos do seu assunto.

Ele mostra uma concepção sensória e estética sem ir para o místico ou metafísico; não tenta fazer com que a linguagem se sobreponha à experiência.

Romantismos, quaisquer que sejam, sempre supõem em seu início a possibilidade de um renascimento social ou individual através de um retorno a algo que se perdeu e que era muito bom ou muito puro (infância, natureza, folclore etc.). Sempre trazem, no seu fim, o sentimento de impossibilidade de melhora social ou individual, com desintegração física e repetição não-criativa.

Ricky Ferreira

Fazem um caminho, portanto, da “natureza” para as seringas em quartos fechados e sujos das cidades.

O cenário de Ricky é o ar-livre urbano, o que já é uma síntese. Não há espaços ou ângulos fechados, excetuando umas fotos de dentro de um trem de metrô em movimento – e o significado de movimento fica mais forte do que o de espaço fechado. Ninguém se droga (no máximo, uma maconhinha). Mas também, por outro lado, o “natural” mais comum é o dos cabelos sem cortar.

Ao abranger os dois aspectos dicotômicos da contra-cultura – seu otimismo e seu pessimismo – Ricky inclui, nas fotos, os outsiders de todas as épocas: vagabundos, mendigos, malucos-beleza, profetas de esquina. Carros abandonados. E contrapõe a eles o “stablishment”, que é o mesmo então, hoje e sempre: as figuras bem-vestidas de meia-idade e cara séria.

Romantismos costumam ser sucedidos por novos ímpetos realistas. Porque não abandona nem por um momento sua objetividade (entrando mesmo em um quase-documentário de passeatas anti-guerra, contra o Nixon e de apoio a homossexuais), Ricky inclui no seu retrato de uma época um início e um fim, e um depois do fim.

A Pomba

(Esta imagem não está na exibição. É de uma capa, feita por Ricky, para a revista A Pomba, que eu editava naquela época, junto com Eduardo Prado. Um saudosismo romântico de minha parte.)

 


Elvira Vigna é escritora, com um mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro: "O que deu para fazer em matéria de história de amor", 2012, Companhia das Letras.

contra-cultura



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